Linha fina: O arquiteto de Santiago se torna o 55º laureado do maior prêmio da arquitetura e o quinto latino-americano a vencer em 47 anos.
Smiljan Radić Clarke venceu o Pritzker 2026. O arquiteto de Santiago foi anunciado em 12 de março de 2026 como o 55º laureado do Prêmio Pritzker, a mais alta distinção internacional da arquitetura.
A escolha coloca Radić em uma sequência curta e simbólica para a América Latina. Ele é o quinto arquiteto latino-americano premiado em 47 anos de história e o segundo chileno, depois de Alejandro Aravena, vencedor em 2016 e atual presidente do júri.
O prêmio reconhece uma obra que não procura monumentalidade direta. O júri descreveu seu trabalho como situado no cruzamento entre incerteza, experimentação material e memória cultural. A leitura é precisa para um arquiteto que transforma fragilidade em método.
Segundo o site oficial do The Pritzker Architecture Prize, Radić segue vivendo e trabalhando em Santiago, onde fundou seu escritório próprio em 1995.
Quem é Smiljan Radić
Smiljan Radić Clarke nasceu em Santiago e tem ascendência croata. A origem familiar aparece em sua biografia como parte de uma relação particular com pertencimento, deslocamento e construção de raízes.
Formado em arquitetura pela Pontificia Universidad Católica de Chile, ele consolidou uma prática de escala deliberadamente íntima. Seu escritório não opera como marca global de repetição formal. Cada projeto parte de uma pergunta própria.
Essa recusa de linguagem fixa ajuda a explicar o interesse internacional por sua obra. Radić trabalha com concreto, pedra, madeira, vidro e grandes blocos de granito. Esses materiais aparecem como peso, ruína, apoio e memória.
No mercado de cultura e luxo, sua arquitetura pede tempo, leitura e presença. A sofisticação está na matéria, na pausa e no gesto autoral.
Pritzker 2026 e a arquitetura da fragilidade
O júri do Pritzker destacou edifícios que parecem temporários, instáveis ou deliberadamente inacabados. Ainda assim, eles oferecem abrigo descrito como otimista e silenciosamente alegre.
A frase resume o ponto central da obra de Radić. Sua arquitetura não promete controle absoluto. Ela reconhece vulnerabilidade, clima, uso e memória. O edifício surge como proteção, mas nunca como blindagem total contra o mundo.
Radić segue caminho oposto ao espetáculo. Usa formas simples e materiais densos para produzir tensão, não excesso.

As obras que o projetaram no mundo
O Pavilhão Serpentine de Londres, de 2014, é a obra mais reconhecida fora do Chile. A estrutura foi concebida como uma concha translúcida de fibra de vidro apoiada sobre grandes pedras.
O resultado parece leve e arcaico. A superfície deixa passar luz, enquanto as pedras remetem a ruína, peso e permanência.
Outro projeto de referência é o Teatro Regional del Biobío, em Concepción. O edifício amplia a presença pública de Radić e mostra como sua pesquisa material pode operar em escala cultural e urbana.

A Pite House, em Papudo, mostra sua dimensão doméstica. A casa não se impõe à paisagem, ela negocia com topografia, vento, luz e proteção.

A América Latina e o Pritzker
A vitória de Radić reforça a presença latino-americana no prêmio Pritzker. O dado tem peso porque a região aparece com frequência na discussão arquitetônica internacional, mas ainda de forma concentrada em poucos nomes.
No Chile, o reconhecimento cria uma ponte direta com Alejandro Aravena. A coincidência é institucional e simbólica. Aravena preside o júri que escolheu Radić, dez anos depois de ter sido o primeiro chileno a receber o prêmio.
A escolha também reposiciona a arquitetura chilena fora de uma leitura única. Se Aravena é associado a habitação, participação e impacto social, Radić leva ao centro do debate uma arquitetura mais introspectiva, material e experimental.
Para leitores interessados no diálogo entre cultura, desenho e patrimônio, o tema se conecta à cobertura de Arquitetura & Design e à editoria de Arte do Begold Journal.
O contexto da edição de 2026
A edição de 2026 também ocorreu sob atenção institucional. A organização adiou brevemente o anúncio depois que arquivos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelaram a associação do então presidente executivo Tom Pritzker com Jeffrey Epstein.
Tom Pritzker não foi acusado de irregularidades. Ele deixou o cargo e se afastou de assuntos ligados ao prêmio. O episódio colocou a governança da distinção sob escrutínio antes da divulgação do vencedor.
A aula magna do laureado aconteceu em 12 de maio de 2026, na UNAM, na Cidade do México, com o título “Arquitetura, distração e conhecimento”. Radić também mantém projetos em andamento na Albânia, Espanha, Suíça e Reino Unido.
O Pritzker 2026 confirma uma arquitetura de baixa retórica e alta densidade cultural. Radić vence porque sua obra mostra que fragilidade também pode ser precisão.