Linha fina: Pedras soltas, blocos de granito e estruturas que parecem ruínas atravessam toda a obra do arquiteto chileno premiado em 2026.

As obras de Smiljan Radić usam a rocha como apoio, memória e tensão visual. O chileno de Santiago, laureado do Pritzker 2026, transformou pedras e blocos de granito em uma assinatura material sem transformar isso em fórmula.

Serpentine Gallery Pavilion apoiado sobre pedras, de Smiljan Radić
Serpentine Gallery Pavilion, 2014

 

O ponto de partida é físico. A pedra aparece como massa, contrapeso e vestígio. Em seus projetos, ela pode sustentar uma cobertura, apoiar um pavilhão ou surgir isolada, como se tivesse chegado antes do edifício.

Essa presença explica parte da força de Radić. Sua arquitetura oscila entre abrigo e ruína, entre objeto provisório e construção ancestral. O júri do Pritzker descreveu seus edifícios como aparentemente temporários, instáveis ou deliberadamente inacabados, mas capazes de oferecer abrigo.

A pedra como elemento central nas obras de Smiljan Radić

Radić trabalha com concreto, pedra, madeira, vidro e fibra de vidro. A pedra, porém, concentra a ambiguidade que atravessa seu repertório. Ela dá peso a estruturas leves e acrescenta idade a projetos recentes.

O uso da rocha não busca ornamento. A pedra entra no projeto como peça estrutural e narrativa. Ela faz o edifício parecer encontrado, não apenas desenhado.

Essa qualidade aproxima suas obras de uma arqueologia inventada. O edifício parece pronto para desaparecer, mas também parece ter resistido por muito tempo. A imagem nasce dessa contradição.

O Serpentine Pavilion e a leveza sobre o peso

O Pavilhão Serpentine de Londres, de 2014, é a síntese mais conhecida dessa tensão. Radić criou uma concha translúcida de fibra de vidro apoiada sobre grandes pedras.

A construção temporária parecia flutuar, mas dependia visualmente do peso mineral. A casca deixava passar luz. As pedras fixavam o projeto no chão.

Teatro Regional del Biobío, obra de Smiljan Radić
Teatro Regional del Biobío, 2018,

O resultado não se apoiava na ideia de leveza pura. A força estava no atrito entre materiais. Fibra de vidro e rocha produziam uma cena quase primitiva, montada em um dos jardins mais vigiados da cultura arquitetônica europeia.

As casas chilenas e a paisagem

Nas casas chilenas, a relação com a paisagem aparece de modo mais silencioso. A Pite House, em Papudo, mostra como Radić usa materialidade e implantação para lidar com vento, luz e topografia.

A casa não se impõe como objeto fechado. Ela negocia com o terreno e com a percepção de abrigo. A rocha, quando surge em seu vocabulário, amplia essa sensação de permanência incompleta.

Pite House em Papudo como exemplo de materialidade expressiva
Pite House em Papudo como exemplo de materialidade expressiva

Esse modo de construir interessa ao luxo contemporâneo porque evita excesso. A sofisticação está na precisão do encontro entre matéria e paisagem. O projeto cria valor sem depender de superfície polida.

Entre o antigo e o provisório

Radić olha para a arquitetura como abrigo, mas não como certeza absoluta. A pedra dá estabilidade. A forma, muitas vezes, sugere instabilidade.

Essa dupla leitura aparece em obras culturais, residenciais e temporárias. O antigo e o provisório convivem sem hierarquia clara. É nessa zona que a arquitetura do Pritzker 2026 ganha densidade.

O assunto se conecta à cobertura de Arquitetura & Design e à editoria de Arte do Begold Journal. A fonte oficial das imagens e da premiação é o The Pritzker Architecture Prize.