Seleção do The Art Newspaper reúne um T. rex chamado Gus, uma paisagem de Landseer, uma versão da Estátua da Liberdade e uma obra de Milton Avery.

A seleção de leilões de julho publicada pelo The Art Newspaper aponta para uma mudança cada vez mais evidente no mercado de colecionismo contemporâneo. O interesse de compradores e instituições não se limita mais à pintura, à escultura ou aos nomes consagrados da história da arte. A pauta reúne um Tyrannosaurus rex chamado Gus, uma paisagem monumental de Edwin Landseer, uma versão em bronze da Estátua da Liberdade e uma composição de Milton Avery. O conjunto mostra como raridade, espetáculo, patrimônio, ciência e narrativa cultural passaram a disputar o mesmo campo de atenção.

O item mais chamativo da seleção é Gus, um esqueleto de Tyrannosaurus rex do fim do Cretáceo, com cerca de 67 milhões de anos, oferecido no leilão Natural History including Gus Rex, da Sotheby’s em Nova York, previsto para 14 de julho. Segundo o The Art Newspaper, o exemplar foi descoberto em um rancho no condado de Harding, em Dakota do Sul, entre 2021 e 2023, e recebeu estimativa de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões, a mais alta já atribuída a um dinossauro.

Quando história natural entra no circuito de alto valor

A presença de Gus em uma seleção de leilões de arte não é um desvio. É sintoma de um mercado mais amplo, no qual objetos de história natural podem alcançar valores comparáveis aos de obras de alto prestígio. O The Art Newspaper lembra que Stan, outro Tyrannosaurus rex, foi vendido por US$ 31,8 milhões com taxas na Christie’s em 2020, enquanto o esqueleto de Stegosaurus chamado Apex alcançou US$ 44,6 milhões na Sotheby’s em 2024.

O fascínio por fósseis desse porte combina escala, antiguidade, raridade e impacto visual. Gus mede mais de 12 pés de altura e 38 pés de comprimento, segundo a publicação, com ossos notavelmente completos e preservados. A matéria também menciona evidências de fraturas curadas e marcas de mordida, detalhes que ampliam o interesse científico e narrativo do exemplar. Para o mercado de luxo cultural, esses elementos importam porque transformam o lote em algo que ultrapassa a posse. Trata-se de possuir uma história material do planeta.

Landseer e a permanência da pintura histórica

Ao lado do dinossauro, o The Art Newspaper destaca Scene in Braemar, paisagem de Edwin Landseer concluída em 1857, que lidera a venda Old Master & 19th Century Paintings and Sculpture Evening Auction, da Sotheby’s, em Londres. A estimativa indicada pela publicação é de £3 milhões a £4 milhões. A obra, de grande escala, mede quase nove pés de altura e é discutida em relação a The Monarch of the Glen, pintura mais conhecida de Landseer pertencente à Scottish National Gallery.

O interesse pela obra não está apenas na assinatura do artista. A proveniência reforça seu peso histórico. Segundo a reportagem, Scene in Braemar foi encomendada pelo empreiteiro ferroviário Edward Ladd Betts para sua casa de campo em Kent, passou pelas coleções de Henry William Ferdinand Bolckow e Edward Guinness, 1º Conde de Iveagh, e permaneceu com a família Guinness até sua última aparição em leilão, em 1994. A menção de Beatrix Potter à pintura, em uma exposição de 1887 da coleção Bolckow, acrescenta uma camada cultural ao percurso da obra.

Patrimônio, símbolo e mercado

A seleção também inclui uma versão em bronze da Estátua da Liberdade, derivada do modelo original em gesso de Frédéric Auguste Bartholdi, oferecida pela galeria Modern Fine Art na Hamptons Fine Art Fair por US$ 1 milhão, segundo o The Art Newspaper. O contexto de apresentação ganha relevância porque a matéria observa que o verão marca o 250º aniversário da fundação dos Estados Unidos. A peça não é apenas objeto decorativo. Ela mobiliza memória política, história pública e símbolo nacional.

Outro lote citado é Rushing Stream, paisagem de Milton Avery de cerca de 1930, oferecida na venda First Open, da Christie’s em Nova York, com estimativa de US$ 40 mil a US$ 60 mil. A obra vem da coleção Rabb Goldberg, formada por uma família ligada à rede Stop & Shop e descrita pela publicação como um conjunto multigeracional que atravessa mais de um século de produção artística.

O retrato geral é claro. O mercado de arte e o colecionismo de alto padrão caminham para uma lógica em que categorias se misturam. Fósseis, pinturas oitocentistas, símbolos nacionais e paisagens modernas podem aparecer lado a lado porque compartilham atributos valorizados por colecionadores contemporâneos: raridade, proveniência, força visual, narrativa pública e capacidade de produzir conversa cultural.

Esse movimento não elimina o valor tradicional da história da arte. Ao contrário, amplia seu entorno. A seleção de julho do The Art Newspaper mostra que o colecionismo contemporâneo se tornou um território expandido, onde objetos muito diferentes competem pela atenção de compradores, museus, advisors e públicos globais. Em um mercado saturado de imagens, o que se destaca é aquilo que combina materialidade excepcional com história verificável.