São Paulo já ocupa a quinta posição mundial entre os mercados de branded residences, atrás apenas de Dubai, Sul da Flórida, Nova York e Phuket. A colocação insere a capital paulista em um segmento imobiliário associado há décadas à hotelaria de luxo e que agora também mobiliza casas de moda, fabricantes de automóveis, estúdios de design e marcas brasileiras.

O ranking resulta de um levantamento da CBRE Brasil, que mapeou 25 empreendimentos entregues ou em fase de lançamento na cidade. A própria consultoria confirmou a quinta posição em uma publicação institucional; os critérios e os mercados à frente de São Paulo foram detalhados pelo Metro Quadrado, do Brazil Journal, de acordo com dados e entrevista fornecidos pela CBRE.

Outros levantamentos podem produzir posições diferentes. No relatório global 2025/26 da Savills, por exemplo, São Paulo aparece em quarto lugar, com 15 projetos concluídos e 15 no pipeline, reflexo de critérios e bases de classificação distintos dos utilizados pela CBRE.

São Paulo entra no grupo dos maiores mercados globais

A comparação da CBRE considera o número de incorporações co-branded, e não o valor total vendido, o preço médio das unidades ou a quantidade de residências. Dubai lidera com mais de 130 projetos, enquanto São Paulo aparece com 25 entregues ou em lançamento, de acordo com o levantamento publicado pelo Metro Quadrado.

O recorte também ajuda a evitar uma conclusão imprecisa. São Paulo não se torna automaticamente o quinto maior mercado em faturamento, estoque de unidades ou valor por metro quadrado. Ela ocupa essa posição no indicador específico de projetos identificados pela CBRE. Na amostra paulistana, marcas ligadas à hotelaria representam cerca de dois terços do total, de acordo com o executivo Danilo Ferrari, vice-presidente da CBRE Brasil ouvido pelo Metro Quadrado.

O que são branded residences

Branded residences são residências vinculadas formalmente a uma marca, que pode participar do conceito, do design, dos padrões construtivos, da operação, dos serviços ou de uma combinação dessas funções. O vínculo costuma ser definido por contratos entre a proprietária da marca, a incorporadora e, quando existe, a empresa responsável pela gestão residencial.

Essa definição abrange estruturas diferentes. Uma residência operada por uma bandeira hoteleira pode compartilhar serviços e padrões com um hotel. Um projeto de moda ou design pode concentrar a participação da marca na linguagem dos interiores, no mobiliário, nas áreas comuns e na aprovação estética. Há ainda empreendimentos independentes de hotel, mas com serviços residenciais administrados por terceiros.

A amplitude do conceito aparece no estudo da Knight Frank, que analisou portfólios de quase 80 marcas e mais de mil projetos ativos ou em desenvolvimento em 83 países. A amostra reúne grupos tradicionais como Four Seasons e Ritz-Carlton e participantes não hoteleiros como Bentley e Aston Martin, de acordo com o Global Branded Residence Survey 2025.

A hotelaria criou a base operacional do modelo

Marcas como Four Seasons, Ritz-Carlton, St. Regis, Rosewood e Mandarin Oriental têm afinidade direta com residências de marca porque já mantêm sistemas de atendimento, manutenção, alimentos e bebidas e gestão de propriedades. Dependendo do contrato e da configuração do empreendimento, os moradores podem contratar concierge, housekeeping, serviços de gastronomia, manutenção, wellness e assistência sob demanda.

Essas comodidades não são universais. Um edifício pode oferecer apenas parte delas, cobrar taxas separadas ou reservar determinados espaços aos hóspedes do hotel. Projetos integrados precisam estabelecer como residências, hotel e áreas compartilhadas dividem despesas e acessos. Por isso, o nome da bandeira não substitui a análise do memorial, da convenção condominial e dos contratos aplicáveis.

O peso das marcas hoteleiras continua dominante. Segundo a Knight Frank, elas representam 83% das branded residences existentes e devem continuar próximas de 80% do mercado no futuro. Entre os projetos de marcas hoteleiras, porém, cresce o modelo independente: 82% dos empreendimentos atuais estão fisicamente associados a um hotel, proporção que cai para 70% no pipeline.

Moda, automóveis e design ampliam o repertório

A entrada de Armani/Casa, Dolce&Gabbana Casa, Bentley, Aston Martin e Pininfarina expandiu o modelo para além da operação hoteleira. Nesses casos, a contribuição pode estar no desenho de interiores, em materiais, mobiliário, arquitetura, linguagem visual e controle de padrões. A administração cotidiana costuma depender de outra empresa quando a marca licenciadora não opera hotéis.

Projetos brasileiros mostram graus distintos de participação da marca

Rosewood Residences São Paulo

Na Cidade Matarazzo, o Rosewood Residences São Paulo reúne 100 residências. A torre foi concebida por Jean Nouvel, e os interiores levam a assinatura de Philippe Starck; as unidades chegam a 6.458 pés quadrados, cerca de 600 metros quadrados, de acordo com a página oficial da Rosewood. Aqui, a marca está ligada a um complexo que também inclui hotel, o que aproxima o projeto do formato clássico de hospitalidade residencial.

Capri Lifestyle by Dolce&Gabbana Casa e Cyrela

No Jardim Europa, o Capri Lifestyle by Dolce&Gabbana Casa apresenta apartamentos de 246 e 279 metros quadrados, com lançamento previsto para setembro de 2026. A comunicação oficial informa que o design da Dolce&Gabbana Casa se integra à arquitetura desenvolvida pela Cyrela, de acordo com o site do empreendimento. O caso ilustra uma parceria centrada em linguagem de interiores e lifestyle, distinta da operação de uma bandeira hoteleira.

Kempinski Laje de Pedra, Pininfarina e Armani/Casa

Em Canela, o Kempinski Laje de Pedra Hotel & Residences é apresentado pela rede como uma abertura futura com hotel e unidades residenciais, restaurantes, bares, spa, clube infantil e piscina no rooftop. O projeto permanece listado entre os próximos empreendimentos da Kempinski, sem que todos os serviços residenciais possam ser presumidos antes da operação efetiva.

A Pininfarina, por sua vez, mantém uma parceria com a Plaenge para uma coleção de torres residenciais no Brasil. O estúdio italiano cita o projeto de Maringá como exemplo de branded real estate orientado pelo design, de acordo com a página institucional da Pininfarina. O vínculo enfatiza arquitetura e identidade formal, não uma estrutura hoteleira.

Em Balneário Camboriú, a Embraed anunciou o Armani/Casa Residences by Embraed para a Avenida Atlântica, na Barra Sul. O projeto prevê interiores do Armani/Casa Interior Design Studio, arquitetura do FGMF e paisagismo de Alex Hanazaki, de acordo com a incorporadora. A torre anunciada terá 113 residências em 78 pavimentos, especificações que permanecem vinculadas ao cronograma de implantação divulgado pela empresa.

Por que compradores aceitam pagar um prêmio

O estudo mais recente da Savills encontrou um prêmio médio global de 33% para branded residences em relação a imóveis comparáveis sem marca. Em destinos de resort, a média chegou a 39%; nas cidades estabelecidas e emergentes analisadas, ficou em torno de 30%, de acordo com o relatório Branded Residences 2025/26.

O percentual não deve ser aplicado diretamente a qualquer apartamento em São Paulo. A Savills compara preços de produtos branded e não branded na mesma localização, e as médias resultam de mercados com oferta, estágio e perfis distintos. Em cidades emergentes, a dispersão de resultados é maior. Localização, qualidade da entrega e execução operacional continuam decisivas.

O prêmio pode refletir uma combinação de fatores: escassez de unidades, arquitetura, interiores, previsibilidade de manutenção, serviços, confiança na marca e reconhecimento entre compradores internacionais. Também pode incorporar royalties, mobiliário específico e custos de adequação aos padrões. A associação com uma grife, isoladamente, não assegura liquidez, revenda ou valorização.

Em alguns projetos, a marca depende da vigência do contrato

A estrutura contratual pode incluir licença de uso do nome, acordo de serviços técnicos, aprovação de projeto e contrato de gestão residencial. O relatório da Knight Frank menciona custos de serviços técnicos, licenciamento e investimento necessário para cumprir padrões de marca, de acordo com o levantamento global de 2025.

Para o comprador, isso significa observar quem presta os serviços, quais cobranças são recorrentes, quais áreas são compartilhadas e o que acontece se o contrato terminar ou não for renovado. Uma marca pode ter poder de fiscalização sobre reformas e manutenção para proteger sua identidade. Também pode existir separação entre a empresa que licencia o nome e a administradora que opera o condomínio.

O Kempinski Laje de Pedra oferece um exemplo particularmente claro dessa estrutura. A documentação oficial destinada aos compradores informa que o nome Kempinski é utilizado por meio de licença e não integra juridicamente a unidade adquirida. O comprador não adquire direitos sobre a marca e, caso o contrato de licença seja rescindido, o nome Kempinski deixa de poder ser utilizado no empreendimento. A própria permanência da associação está condicionada à manutenção dos padrões residenciais da rede.

Um prédio assinado não equivale sempre ao mesmo produto

A expressão branded residence abriga diferentes níveis de participação. No extremo operacional, uma marca hoteleira administra serviços e acompanha padrões de hospitalidade. Em outros projetos, a marca licencia o nome, cria interiores e aprova materiais. Há ainda colaborações em que o valor principal está na arquitetura ou no mobiliário.

O que sustenta o avanço de São Paulo

A CBRE relaciona o crescimento local ao ambiente de juros elevados, que levou incorporadoras a concentrar investimentos nos segmentos de alto e altíssimo padrão, menos dependentes do crédito imobiliário. Nesse contexto, a marca e os serviços funcionam como diferenciais quando o produto já alcança patamares elevados de preço, de acordo com Danilo Ferrari, da CBRE Brasil.

Consultorias projetam expansão, mas contam o mercado de formas diferentes

A Savills contabilizou 910 empreendimentos globalmente ao final de 2025, ante 764 em dezembro de 2024, crescimento de 19%, de acordo com o Branded Residences 2025/26. Já a Knight Frank registrou 611 projetos ativos em sua base de 2025 e projetou 1.019 até 2030, além de mais de 162 mil unidades residenciais no fim da década, de acordo com o Global Branded Residence Survey.

Os totais não são diretamente intercambiáveis. As consultorias trabalham com universos de marcas, cortes temporais e classificações próprias para projetos ativos e pipeline. A divergência não invalida a direção comum dos estudos, que apontam aumento da oferta, expansão geográfica e maior participação de marcas não hoteleiras.

Para o Brasil, a trajetória pode avançar além de São Paulo por meio de destinos turísticos e cidades com mercado de alto padrão, como indicam Canela, Balneário Camboriú e os projetos da Plaenge com Pininfarina. As tendências internacionais incluem residências independentes de hotel, wellness, projetos menores em áreas urbanas e personalização mais ampla. O crescimento, porém, continuará condicionado à qualidade da entrega, à clareza contratual e à capacidade de sustentar os padrões prometidos após a venda.