O que permanece quando uma coleção atravessa gerações? Em Paris, a resposta aparece em mobiliário, porcelanas, pinturas, livros e objetos que passaram por diferentes ramos da família Rothschild e agora chegam ao mercado reunidos sob um mesmo título: Le goût Rothschild en héritage: Un pied-à-terre sur le Champ-de-Mars.
A Artcurial apresenta o conjunto em exposição antes do leilão marcado para 22 de setembro de 2026. Mais do que uma venda de obras e objetos, a seleção oferece um retrato de como o gosto privado pode ser construído, herdado e reorganizado ao longo de décadas — e de como a proveniência altera a leitura de uma peça.
Duas porcelanas de Sèvres ligadas a Luís XVI
Entre os destaques estão duas verrières ovais em porcelana de Sèvres do século XVIII provenientes do serviço Beau Bleu de Luís XVI. A Artcurial estima o par entre €700 mil e €1 milhão. Segundo a casa, o serviço foi concebido com participação direta do rei, que definiu sua composição e seu programa iconográfico inspirado na mitologia clássica e na história antiga.
As peças foram pintadas por Pierre-André Leguay e entregues em 1785 e 1791. Decoradas sobre fundo azul com cenas de Dido e Eneias, Adônis e Psiquê, são apresentadas pela Artcurial como as únicas verrières do serviço. O interesse aumenta porque grande parte das demais peças associadas ao conjunto real hoje integra coleções públicas.
O gosto Rothschild além de um único período
O leilão não se limita à porcelana. O catálogo reúne mobiliário, artes decorativas, Old Masters, livros e autógrafos. Uma cômoda atribuída a Charles Cressent, poltronas com tapeçaria de Beauvais e pinturas do século XVIII ajudam a construir um ambiente mais próximo de uma residência colecionadora do que de uma seleção montada apenas por categoria.
Entre as pinturas, aparece Portrait de femme au chien noir, conhecido como Retrato de Madame de Tencin, de François-Hubert Drouais, datado de 1756. A obra pertenceu à coleção de Charlotte de Rothschild e depois passou a Henri de Rothschild, personagem central na história do conjunto.
Henri de Rothschild e uma coleção formada por heranças
Henri de Rothschild, nascido em 1872, foi médico, mecenas, dramaturgo e colecionador. A Artcurial destaca que ele recebeu diferentes heranças familiares ao longo da vida, o que fez convergir em suas residências obras originárias de diferentes ramos da dinastia.
Em 1899, sua avó Charlotte transmitiu parte de sua coleção de pinturas. Depois vieram outras heranças, incluindo as de seu tio Arthur, de sua irmã Jeanne e de sua mãe Thérèse. Esse percurso explica por que o catálogo reúne peças de origens e épocas distintas, mas conectadas por uma mesma história de família.
Quando a proveniência se torna parte da obra
No mercado de arte, a proveniência pode ser tão relevante quanto a autoria ou a raridade. Saber onde uma obra esteve, a quem pertenceu e como foi transmitida ao longo do tempo ajuda a construir seu contexto cultural e histórico. No caso desta coleção, a sucessão de proprietários Rothschild transforma o catálogo em um mapa de relações entre casas, gerações e diferentes sensibilidades de colecionismo.
É justamente essa camada que torna a venda especialmente interessante. A coleção não fala apenas de objetos valiosos, mas da forma como uma família europeia construiu, preservou e reinterpretou seu repertório visual durante mais de um século.
Serviço
Le goût Rothschild en héritage: Un pied-à-terre sur le Champ-de-Mars. Leilão em 22 de setembro de 2026, às 14h30, na Artcurial, em Paris. A exposição pública ocorre nos dias anteriores, conforme programação da casa de leilões.