Um cavalo-marinho de aparência congelada surge no fim do primeiro ato para levar Clara e o Príncipe Quebra-Nozes à Terra dos Doces. A imagem é uma das marcas da montagem de O Quebra-Nozes do English National Ballet, que volta ao London Coliseum de 17 de dezembro de 2026 a 10 de janeiro de 2027. Estreada em 2024, a produção reúne mais de 100 bailarinos e músicos, com a partitura de Tchaikovsky tocada ao vivo pela English National Ballet Philharmonic.

A coreografia é de Aaron S. Watkin, diretor artístico da companhia, e de Arielle Smith, vencedora do prêmio Olivier. Dick Bird assina cenários e figurinos. A versão desloca a história para a Londres eduardiana, no início do século XX, e usa o balé para retratar a cidade naquele momento.

Uma véspera de Natal na Londres eduardiana

Na abertura, Clara e a mãe fazem compras no Drosselmeyer’s Sweets & Delights Emporium, o empório de doces e presentes do personagem. É ali que a menina vê o boneco encantado. Do lado de fora, a cena reconstrói a agitação de uma Londres próspera, com mercados de rua, carruagens e lampiões. Segundo o guia da companhia sobre os detalhes da montagem, quem observar o fundo do palco pode identificar a Catedral de São Paulo.

O período tem também uma ligação com o teatro. O London Coliseum, casa de Natal da companhia, foi inaugurado em 1904, com projeto do arquiteto Frank Matcham, que pretendia criar o maior e mais refinado music hall da cidade. À época, o edifício foi chamado de “palácio de entretenimento do povo”.

A ambientação histórica inclui um detalhe pouco comum em versões do balé: as sufragistas, que reivindicavam o direito de voto das mulheres. Clara as vê duas vezes, primeiro na porta do empório, com a mãe, e depois no auge da batalha contra o Rei dos Ratos, quando tira força das figuras ao seu redor para lutar.

Ilusionismo, um quebra-nozes de verdade e uma árvore que cresce

Na festa do primeiro ato, Drosselmeyer apresenta truques de mágica reais, criados pela companhia com John Bulleid, diretor e designer de ilusionismo. O presente de Clara, aqui, é um quebra-nozes de madeira que funciona: a boca abre e fecha para quebrar nozes. Quando a mágica do personagem lhe dá vida, o boneco ganha movimentos precisos, de marionete.

À noite, Clara adormece junto à árvore de Natal, que cresce diante da plateia até uma escala enorme, enquanto a menina encolhe ao tamanho dos brinquedos. A batalha contra o Rei dos Ratos é encenada com adereços gigantes e soldados em marcha. Entre os objetos, a companhia aponta um pedaço de queijo espetado em um palito, versão ampliada dos petiscos servidos na festa. A cena termina no pas de deux em que Clara vê o Quebra-Nozes transformado em príncipe.

O fim do ato é dominado pela Valsa dos Flocos de Neve. Guiado pela Rainha do Gelo, o conjunto de bailarinos revela o cavalo-marinho cintilante que leva o casal ao segundo ato.

Doces do mundo no lugar das danças nacionais

Na Terra dos Doces, a equipe criativa voltou à sinopse original do balé e trocou as tradicionais danças nacionais por iguarias de diferentes lugares. Cada sabor oferecido pela Fada Açucarada abre uma nova dança: o torrone espanhol, o sahlab do Oriente Médio, o tanghulu chinês e o makivnyk ucraniano. Há ainda uma caixa de Liquorice Allsorts, as balas de alcaçuz britânicas, seguida de marzipãs e rosas de creme de manteiga que preparam o pas de deux da Fada Açucarada.

Para costurar os dois atos, coreógrafos e cenógrafo espalharam esses doces também pelo mercado de rua e pela festa da primeira metade, junto com as ameixas açucaradas que dão nome à fada.

Mil pétalas por tutu

Parte do trabalho não aparece à primeira vista. Na Valsa das Flores, as Rosas de Creme de Manteiga dançam com tutus feitos de mais de 1.000 pétalas individuais. Segundo a companhia, só o tingimento do tecido de um desses tutus leva quatro horas e meia. Depois, cada pétala é moldada e endurecida com linha de pesca, para garantir o movimento leve em cena.

Uma partitura mais viva

A música de Tchaikovsky não foi alterada, mas o andamento mudou. Sob a regência de Maria Seletskaja, diretora musical do English National Ballet, os tempos se aproximam do que o compositor teria pretendido. Em entrevista ao Financial Times citada pela companhia, Watkin afirma que, com a evolução da técnica do balé clássico, os andamentos ficaram lentos demais, e que é preciso variá-los para não perder o público.

Datas, duração e público

A temporada no London Coliseum, no West End, vai de 17 de dezembro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, com sessões à tarde e à noite. O espetáculo tem cerca de duas horas, com um intervalo. A orientação da companhia é para maiores de cinco anos, mas uma récita familiar, em 9 de janeiro de 2027, às 14h, aceita crianças menores. Os preços variam conforme a data e o setor e são informados na página de venda da companhia; os amigos do English National Ballet têm desconto.

A temporada no London Coliseum recebe, assim, uma Londres eduardiana reconstruída no palco de um teatro inaugurado na mesma época, em 1904.