Descansar mais, fugir da rotina e personalizar as férias aparecem entre as preferências destacadas nas tendências de viagens para 2027 da Booking.com. Na pesquisa global da plataforma, 77% dos entrevistados considerariam fazer uma viagem deliberadamente fora do seu perfil habitual, e 58% considerariam suas necessidades alimentares na escolha do destino ou da acomodação. O descanso, por sua vez, nem sempre acompanha o retorno para casa: em uma análise divulgada em 21 de outubro de 2026, a Booking.com informou que 85% dos participantes de sua pesquisa global disseram já ter voltado de férias mais cansados do que quando partiram. A resposta não significa que essa proporção se arrependa de viajar, nem que todas as suas férias tenham produzido cansaço. Mostra, porém, uma experiência suficientemente difundida entre os entrevistados para merecer atenção da hotelaria: o tempo fora da rotina nem sempre é vivido como tempo de recuperação.
O dado pertence ao desdobramento do relatório de previsões para 2027 publicado pela Booking.com. A edição principal, lançada em 14 de outubro, reúne outras respostas que ajudam a compreender esse contraste. Oitenta e um por cento escolheriam o destino sobretudo pelo que desejam sentir, em vez de partir de um lugar definido no mapa. E 66% gostariam de poder retirar de um pacote serviços que não pretendem usar. São preferências declaradas, não uma medição de reservas efetuadas para 2027.
Há uma questão interessante para quem acompanha viagens de alto padrão. Um quarto silencioso, um roteiro com menos compromissos, gastronomia ajustada a necessidades específicas ou a possibilidade de dispensar um serviço cobrado no pacote podem ter mais peso na escolha de uma estadia do que a quantidade de atrações oferecidas. A pesquisa não foi conduzida exclusivamente com hóspedes de luxo, portanto não permite afirmar que esse público já tenha mudado de comportamento. Ela apresenta, isso sim, perguntas concretas para hotéis, resorts, operadores e viajantes.
O que a Booking.com pesquisou, e o que os percentuais significam
O Travel Predictions 2027 é a 11ª edição da pesquisa anual da plataforma. O levantamento online foi realizado entre julho e agosto de 2026, com 28.230 adultos de 32 países e territórios que planejavam viajar a lazer ou a negócios nos 12 a 24 meses seguintes. O grupo incluiu mil participantes do Brasil. A empresa informa margem de erro global de aproximadamente 0,6 ponto percentual e também utilizou observações de funcionários para desenvolver os temas abordados.
Essa base exige dois cuidados de leitura. Primeiro, os percentuais apresentados na divulgação global da pesquisa não devem ser descritos como números exclusivos dos brasileiros. Segundo, expressões como “gostariam”, “considerariam” e “teriam interesse” indicam respostas sobre possibilidades de viagem, e não decisões já tomadas. O levantamento também não representa uma contagem do que ocorrerá em 2027.
O relatório agrupa nove comportamentos possíveis para o período, com temas que vão de preferências emocionais à inteligência artificial. O recorte sobre o cansaço das férias foi apresentado posteriormente por Matthias Schmid, vice-presidente sênior de acomodações da empresa, ao discutir o que prestadores de hospedagem podem fazer com esses resultados.
Escolher o lugar pelo sentimento, não pelo endereço
Entre os dados mais relevantes do relatório está o interesse por viagens orientadas pelo estado emocional. Oitenta e um por cento dos entrevistados disseram que escolheriam um destino principalmente em função de como desejam se sentir. Setenta e seis por cento usariam uma ferramenta de busca capaz de recomendar lugares a partir do humor ou da sensação procurada. A hipótese é diferente da pesquisa convencional por país, cidade ou atração: antes de decidir onde ficar, o viajante descreveria o tipo de dia que espera viver.
Esse cenário ainda não significa que exista um serviço padronizado de reservas que leia emoções e faça recomendações infalíveis. Trata-se da disposição declarada em uma pesquisa. A discussão tecnológica ganha outra dimensão quando entra o uso de dados pessoais: 76% dos entrevistados da geração Z aceitariam compartilhar informações sobre seu estado emocional, hábitos digitais ou dispositivos conectados para personalizar a viagem, ante 35% dos baby boomers, conforme o relatório. São grupos geracionais distintos; esses percentuais não descrevem a população total.
Para o leitor interessado em hospedagem, a consequência prática está na forma de comparar propriedades. Um retiro de natureza pode servir a quem busca silêncio, mas não a quem prefere atividades constantes. Um hotel urbano com arquitetura marcante pode proporcionar estímulo cultural, sem cumprir a mesma função de uma estadia de descanso. O endereço permanece importante; a diferença é perguntar também qual atmosfera, ritmo e serviço a viagem realmente precisa oferecer.
Pacotes flexíveis, alimentação e a personalização do bem-estar
No segmento chamado pela Booking.com de The All-Exclusive, 66% dos participantes gostariam de um pacote que permitisse excluir serviços não utilizados. Outros 58% considerariam suas necessidades alimentares na escolha do destino ou da acomodação. O mesmo levantamento aponta que 67% dizem ter tido alguma decisão de viagem influenciada por mudanças pessoais relacionadas à saúde, ao corpo ou ao estilo de vida.
Essas respostas colocam em discussão um elemento tradicional da hotelaria: o preço de uma estadia frequentemente reúne refeições, bebidas, atividades e acesso a instalações. Para alguns hóspedes, um pacote abrangente pode ser conveniente. Para outros, pagar por benefícios que não serão utilizados não faz sentido. Nenhum dos percentuais prova que o modelo all-inclusive está desaparecendo; o relatório registra preferências por maior possibilidade de escolha.
Na avaliação de Matthias Schmid, publicada em 21 de outubro, 79% dos participantes consideram importante encontrar pelo menos uma opção alimentar mais saudável ou nutricionalmente equilibrada no hotel, e 61% se interessam por hospedagens com alternativas de alimentação consciente. O executivo apresenta esses resultados como oportunidades para informação clara, adaptação de cardápios e serviços que simplifiquem a estadia, não como prova de que todas as propriedades já adotaram essas soluções.
Na cobertura do Begold Journal, o universo dos spas Dior instalados em hotéis internacionais mostra outra dimensão do bem-estar na hospitalidade. Os tratamentos e os endereços citados naquela reportagem têm identidades próprias; não há evidência de que tenham sido concebidos como resposta à pesquisa de 2027. A relação é editorial: ajuda a entender como serviços de cuidado pessoal podem integrar uma viagem cujo objetivo principal não é percorrer o maior número possível de atrações.
A experiência de voltar mais cansado do que partiu
O resultado de 85% aparece no texto institucional dirigido ao setor de hospedagem, que discute estadias centradas na recuperação. A empresa não afirma que a fadiga tenha uma única causa. No documento, itinerários excessivamente preenchidos, deslocamentos difíceis e decisões sucessivas durante o passeio são apresentados como fatores que podem prejudicar o descanso.
Essa distinção importa. Não se pode concluir que 85% dos viajantes precisem de tratamento médico, que estejam esgotados permanentemente ou que devam procurar determinado hotel. A pergunta se refere a uma experiência anterior relatada pelos participantes. Para o planejamento de férias, ela reforça a importância de observar os intervalos entre atividades, as conexões de transporte e o tempo efetivamente disponível para ficar no destino.
O relatório também leva a discussão ao voo. Oitenta e nove por cento afirmaram que fariam uma viagem de longa distância se houvesse garantia de chegar descansados, uma condição hipotética que a aviação comercial não promete. Entre os recursos desejados, 33% mencionaram orientações sobre alimentação, bebidas ou cafeína para apoiar o sono; 20% citaram iluminação voltada à redução do jet lag; e 19% se interessaram por kits de cuidados com a pele. A pesquisa indica preferências, não a existência universal desses serviços em aeronaves.
Inteligência artificial para trabalhar durante as férias?
Em outro bloco, 64% dos entrevistados disseram ter interesse em um agente de inteligência artificial capaz de administrar tarefas de trabalho enquanto viajam. Quarenta e três por cento se declararam confortáveis com a ideia de deixar e-mails e rotinas administrativas sob esse cuidado. Ao mesmo tempo, 58% relataram que o último dia das férias perde parte do prazer quando começam a pensar no retorno profissional.
É uma intenção que merece alguma distância crítica. Um programa que organiza mensagens ou destaca prioridades não equivale, por si só, a uma pessoa autorizada a responder compromissos comerciais, lidar com dados confidenciais ou assumir decisões em nome de alguém. A Booking.com apresenta uma disposição dos entrevistados, não comprovação de que a automação de e-mails seja segura ou adequada a todos os ambientes de trabalho.
A leitura mais útil para a viagem é outra: a preocupação com o que acontece no escritório continua influenciando a sensação de descanso. Se tecnologia, planejamento e limites profissionais conseguirem reduzir essa interrupção, há um benefício possível. Mas o levantamento não demonstra que ferramentas de IA já produzam, na prática, férias mais reparadoras.
Viajar com quem combina com o orçamento
O planejamento financeiro também aparece como um elemento de convivência. Metade dos participantes da pesquisa, 50%, já reconsiderou quem convidar para uma viagem em razão de diferenças no orçamento; 51% relataram tensões durante uma estadia decorrentes de expectativas distintas de gastos. São experiências declaradas, sem recorte específico por renda ou padrão de hospedagem.
Para viagens em grupo, a observação ajuda a explicar a utilidade de informação transparente sobre despesas individuais, categorias de quarto, refeições e serviços opcionais. O relatório não afirma que o destino mais caro seja o mais desejado. Ele indica que a compatibilidade de expectativas pode interferir na decisão de viajar acompanhado, mesmo quando todos concordam sobre a cidade ou o hotel.
Surpresa, atividades físicas e viagens a dois
O levantamento também registra interesse por roteiros que contrariem hábitos conhecidos: 77% dos entrevistados considerariam fazer uma viagem deliberadamente fora do seu perfil habitual, e 36% gostariam de surpreender familiares ou amigos com a escolha. Outro tema destacado é o turismo associado a histórias sobrenaturais e experiências de atmosfera gótica, que despertou interesse de 65% dos participantes. Não se trata de uma medida de visitas efetivamente realizadas a esses lugares.
Há resultados ligados à companhia durante a jornada. Cinquenta e cinco por cento disseram ter interesse em integrar uma comunidade de praticantes de esporte durante uma viagem. Entre pessoas que já viajaram sozinhas, 66% relataram ter criado alguma amizade ou conexão duradoura a partir de uma atividade física compartilhada. Nesse caso, o interesse está na possibilidade de conhecer pessoas durante a prática, e não necessariamente na inscrição em provas de alto rendimento.
As viagens a dois ganharam uma leitura diferente: 47% considerariam viajar com o objetivo de resolver um conflito, enquanto 81% disseram que pelo menos uma atividade nas férias favorece conversas honestas ou difíceis. Caminhadas apareceram entre as atividades citadas. Esses números descrevem percepções dos participantes e não autorizam tratar uma viagem como substituta de acompanhamento psicológico ou terapia de casal.
Goiânia e Reims aparecem entre os destinos destacados para 2027
A Booking.com divulgou separadamente uma lista de dez cidades apresentadas como destinos em evidência para 2027. Entre elas estão Goiânia, em Goiás, e Reims, na região francesa de Champagne. A presença da capital goiana é especialmente interessante para o leitor brasileiro: a plataforma menciona seu traçado urbano planejado, os edifícios art déco, os mercados e a gastronomia regional. Reims aparece associada às caves de champanhe e ao patrimônio arquitetônico da cidade.
A seleção de destinos para 2027 não deve ser confundida com os percentuais da pesquisa de comportamento. Sua metodologia considera localidades situadas entre as mil mais reservadas na plataforma entre janeiro e junho de 2026, ordenadas pelo crescimento anual e submetidas a uma curadoria geográfica. Isso não constitui um ranking das dez cidades mais visitadas do mundo, nem comprova que Goiânia e Reims tenham sido escolhidas pelos entrevistados por motivos emocionais.
A lista também inclui Monterey, nos Estados Unidos; Sendai, no Japão; Rosario, na Argentina; Puri, na Índia; Christchurch, na Nova Zelândia; Bratislava, na Eslováquia; Pescara, na Itália; e Assunção, no Paraguai. Cada localidade tem contexto cultural e geográfico distinto, razão pela qual qualquer roteiro específico exige pesquisa própria antes de associar o destino a uma preferência individual.
Em outra pesquisa, conduzida pela Expedia com metodologia diferente, Punta del Este apareceu entre os destaques para 2027 após alta de 65% nas buscas por viagens na plataforma. Os dois levantamentos podem inspirar pautas de destino, mas seus percentuais, períodos e critérios não são intercambiáveis.
O que realmente observar ao reservar uma viagem para 2027
As previsões da Booking.com oferecem uma lista de perguntas mais útil do que uma fórmula universal. O viajante quer silêncio ou uma programação intensa? Prefere escolher refeições e atividades individualmente ou receber um pacote fechado? O trajeto aéreo permite descansar? A hospedagem apresenta claramente os serviços incluídos? Há tempo livre suficiente para conhecer o destino sem transformar os dias de folga numa sucessão de horários marcados?
Para quem valoriza hotelaria, arte e gastronomia, a personalização pode começar pela pesquisa de propriedades cujos espaços e atividades correspondam ao propósito da viagem. Os hotéis em regiões vinícolas reunidos pelo Begold Journal mostram como uma mesma escolha de hospedagem pode reunir paisagem, arquitetura, gastronomia e visitas às vinícolas. Não é preciso presumir que esse conjunto de serviços agrade a todos. A decisão depende justamente do que cada pessoa pretende aproveitar.
A principal conclusão factual do levantamento é sobre preferências declaradas, não sobre um futuro já confirmado. A pesquisa global mostra interesse em férias mais ajustáveis, recomendações orientadas por sentimentos e formas de proteger o descanso. O número mais incômodo permanece o ponto de partida: 85% dos entrevistados dizem já ter voltado de férias mais cansados do que saíram. Planejar 2027 talvez comece por perguntar como evitar que a próxima viagem entre nessa lembrança.