Criadas por Isamu Noguchi em Gifu, em 1951, as Akari Light Sculptures continuam associadas ao papel washi, ao bambu e à produção da Ozeki. Em Paris, a instalação Nature’s Way recupera modelos concebidos para a Bienal de Veneza de 1986.

As Akari Light Sculptures pertencem à história do design modernista dos anos 1950, mas sua existência material permanece ligada a uma tradição japonesa anterior a elas. As formas luminosas concebidas por Isamu Noguchi utilizam papel washi artesanal, nervuras de bambu e estruturas de suporte, preservando uma relação direta com a fabricação de lanternas de Gifu, no Japão, de acordo com o Noguchi Museum.

Em 2026, a instituição de Nova York reconhece oficialmente os 75 anos da série. A contagem parte de 1951, quando Noguchi visitou Gifu e iniciou os primeiros projetos. O aniversário se refere, portanto, ao começo da pesquisa e não à idade individual de cada exemplar, de acordo com a página oficial 75 Years of Akari.

A origem das Akari Light Sculptures em Gifu

Noguchi chegou a Gifu na primavera de 1951, durante uma viagem a Hiroshima. Na cidade, acompanhou uma noite de pesca com cormorões no rio Nagara, iluminada por lanternas de papel e braseiros instalados nas embarcações. As lanternas locais, chamadas chochin, eram produzidas manualmente com papel obtido da casca de amoreira, de acordo com a história das Akari documentada pelo Noguchi Museum.

A indústria de lanternas de Gifu enfrentava perda de atividade diante da produção de exemplares baratos no Japão e em outros países. Apresentado ao prefeito, Noguchi recebeu um pedido para colaborar com a revitalização do ofício local. No dia seguinte, desenhou duas propostas e substituiu a vela tradicional por uma lâmpada incandescente, de acordo com o arquivo digital do museu.

O artista escolheu a palavra japonesa “akari”, associada tanto à iluminação quanto à ideia de leveza. Desde o início, tratou os objetos como formas de escultura e valorizou sua construção dobrável, característica herdada das chochin. Fechadas, podiam ser armazenadas e transportadas em caixas rasas; abertas, o papel passava a definir um volume no espaço, segundo o Noguchi Museum.

Papel washi, bambu e design moderno

A parceria industrial e artesanal foi estabelecida com a Ozeki Jishichi Shoten, empresa fundada em 1891 e mais tarde denominada Ozeki & Co. O processo histórico registrado pelo museu utiliza moldes de madeira para definir o volume, nervuras de bambu estendidas sobre a forma e tiras de papel washi coladas à estrutura. Depois da secagem, o molde interno é desmontado e retirado, de acordo com o Noguchi Museum Shop.

O washi utilizado é produzido com fibras da parte interna da casca de amoreira. Sua resistência permitiu a Noguchi trabalhar superfícies curvas, cilindros, esferas, volumes assimétricos e variações de escala. As nervuras podiam seguir espaçamento regular ou formar espirais menos uniformes, modificando a relação entre papel, sombra e luz, de acordo com a pesquisa histórica da instituição.

Nos primeiros anos, Noguchi desenvolveu rapidamente o repertório. Entre os protótipos de 1951 e uma exposição realizada em Tóquio em agosto de 1954, havia criado quase 30 modelos, alguns deles variações de tamanho de uma mesma forma. O artista também registrou patentes no Japão e nos Estados Unidos relacionadas a suportes, armações e ferragens, segundo o Noguchi Museum.

A denominação Akari Light Sculptures estabelece a posição pretendida pelo autor entre iluminação, design e escultura. A luz não aparece apenas como função: atravessa o washi e torna perceptível toda a superfície do volume. Essa formulação acompanha uma carreira multidisciplinar que incluiu escultura, jardins, mobiliário, cerâmica, arquitetura, paisagem e cenografia, de acordo com a biografia oficial de Isamu Noguchi.

Como as Akari atravessaram 75 anos

A continuidade das Akari Noguchi pode ser observada em fatores documentados: a variedade de modelos criada desde os anos 1950, a possibilidade de transportar as peças dobradas e a permanência da Ozeki na produção em Gifu. Isso não significa que cada exemplar atual repita sem alterações todas as etapas adotadas em 1951, mas confirma a ligação da série com materiais e métodos derivados das lanternas locais, de acordo com o Noguchi Museum.

O marco de 2026 também está sendo usado para organizar a memória do projeto. O museu informa que trabalha em iniciativas digitais dedicadas à história das esculturas e à sua presença no design e nos interiores. A página comemorativa reúne ainda uma convocação de fotografias de Akari em espaços domésticos, de acordo com o projeto oficial 75 Years of Akari.

Nature’s Way leva os 75 anos das Akari a Paris

Em 10 de setembro de 2026, a OGATA Paris abriu Nature’s Way, instalação organizada em colaboração com The Isamu Noguchi Foundation and Garden Museum, de Nova York. A apresentação permanece aberta até 26 de setembro e integra a programação oficial do 75º aniversário, de acordo com a OGATA Paris.

A mostra não é apresentada como retrospectiva completa da obra de Noguchi. Seu recorte concentra esculturas Akari, fotografias de montagem e documentos dos arquivos do museu relacionados à participação do artista na Bienal de Veneza de 1986. A instalação também antecipa a nova apresentação dos modelos VB1 e VB3, de acordo com o Noguchi Museum.

As duas peças voltam a ser produzidas pela Ozeki & Co. em Gifu. Depois da apresentação em Paris, a previsão institucional é que sejam disponibilizadas exclusivamente na América do Norte pelo Noguchi Museum a partir de novembro, de acordo com a instituição nova-iorquina.

As Akari que unem papel, luz e pedras

Os modelos VB1 e VB3 partem de estruturas piramidais suspensas. De cada canto inferior saem cordões de algodão presos a pedras revestidas pelo mesmo papel washi de casca de amoreira associado à série. As pedras ligam visual e fisicamente as peças ao chão, detalhe descrito como excepcional dentro do conjunto Akari, de acordo com a OGATA Paris.

A geometria triangular orientou o título Nature’s Way. Noguchi escreveu que o triângulo parecia ser o modo de proceder da natureza. Nas duas peças, a forma aérea da pirâmide e o peso das pedras estabelecem uma tensão material entre suspensão e ancoragem, documentada na apresentação oficial da instalação pelo Noguchi Museum.

VB1 e VB3 foram concebidas originalmente para What is Sculpture?, instalação de Noguchi no pavilhão dos Estados Unidos na Bienal de Veneza de 1986. Naquele contexto, não funcionavam apenas como peças de piso ou de teto, mas como componentes da organização espacial proposta pelo artista, de acordo com a OGATA Paris.

De Gifu a Paris, com passagem por Veneza

A cronologia dos 75 anos reúne três lugares e três datas precisas. Em Gifu, em 1951, Noguchi iniciou as Akari após observar a tradição local das lanternas e começou a trabalhar com a Ozeki. Em Veneza, em 1986, apresentou VB1 e VB3 na exposição What is Sculpture?. Em Paris, em 2026, os dois modelos retornam ao público dentro de Nature’s Way, de acordo com o programa oficial da OGATA.

Entre esses momentos, papel washi, bambu, estruturas metálicas, cordões de algodão e pedras assumiram funções diferentes dentro da mesma pesquisa sobre luz e volume. O aniversário reconhecido pelo Noguchi Museum registra a duração de um projeto iniciado há 75 anos e ainda ligado à cidade japonesa em que foi concebido.