Um barco de menos de seis metros deixou a costa da Namíbia em junho de 1984 com um único tripulante e sem motor. Cem dias depois, Amyr Klink alcançava o litoral da Bahia, concluindo a primeira travessia solitária a remo do Atlântico Sul. É essa viagem, preparada com estudo de correntes, projeto naval e uma rotina de navegação, que Filipe Bragança interpreta em 100 Dias, filme dirigido por Carlos Saldanha.

A chegada ocorreu em 18 de setembro de 1984, conforme a cronologia oficial do navegador. Em setembro de 2026, a expedição completou 42 anos. Entre a partida africana e o desembarque brasileiro, o mar exigiu de Amyr muito mais trabalho do que remar: calcular posições, administrar alimentos, cuidar da embarcação e esperar que condições desfavoráveis passassem.

Filipe Bragança interpreta uma travessia que durou cem dias

Com estreia comercial prevista para 29 de outubro de 2026, 100 Dias parte da expedição relatada por Amyr no livro Cem Dias entre Céu e Mar. A Ventre Studio descreve uma narrativa que alterna a solidão no oceano com passagens da infância e da adolescência do navegador. A travessia organiza o filme, mas a história também acompanha a formação de seu personagem central.

Saldanha, conhecido por trabalhos de animação como A Era do Gelo e O Touro Ferdinando, dirige Bragança em uma produção com atores. O Festival do Rio registra o longa como uma ficção brasileira de 2026, com 116 minutos e roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares. O programa o inclui na Première Brasil, como Gala de Encerramento.

Amyr Klink saiu da Namíbia sozinho em um barco a remo

O ponto de partida foi Lüderitz, na costa da Namíbia, em 10 de junho de 1984. O destino alcançado cem dias depois foi a Praia da Espera, em Itacimirim, localidade de Camaçari, no litoral norte da Bahia. A documentação da expedição identifica a praia como o fim da travessia; em entrevista ao g1, Amyr explicou que procurava um pequeno porto de pescadores onde pudesse desembarcar com segurança.

Salvador entrou no percurso depois, com uma recepção pública. A distinção importa: a capital baiana e a Praia da Espera não são o mesmo ponto de chegada. O percurso oceânico somou aproximadamente 3.700 milhas náuticas, quase 7 mil quilômetros. A ficha oficial do barco registra as 3.700 milhas e os cem dias de viagem.

A rota foi calculada a partir das correntes do Atlântico

A escolha dos dois lados da travessia levou em conta a circulação do oceano. Correntes, ventos e época do ano ajudaram a definir o trajeto entre a África e o Brasil. Na entrevista ao g1, Amyr explicou que o litoral baiano foi escolhido em função dessas condições. Remar significava trabalhar com o deslocamento das águas, sem depender exclusivamente da força física para vencer toda a distância.

Uma reportagem de O Globo, preservada no site de Amyr, registra quase dois anos de preparação. O navegador consultou relatos de exploradores, conversou com marinheiros brasileiros e estrangeiros e participou das decisões sobre o barco. Rota, alimentação e distribuição do esforço foram tratadas como problemas a resolver antes e durante a viagem.

No início, jornadas excessivamente longas de remo provocaram cansaço e queda de rendimento nos dias seguintes. Amyr passou a organizar o trabalho em cerca de oito horas diárias, com limite para a extensão dos turnos. Em dias de tempestade, precisava aguardar. O avanço dependia da combinação entre condição física, tempo disponível e comportamento do mar.

O barco precisava sobreviver até a capotagens

O I.A.T. foi construído para essa expedição. Sua ficha técnica oficial informa 5,94 metros de comprimento e deslocamento de 1.190 quilos. O projeto é creditado a José Carlos Belford Furia; a construção, à Iates Alpha e a Eduardo Arena.

O sistema de lastro associado aos tanques permitia que a embarcação retornasse à posição normal depois de virar. O relato oficial compara seu comportamento ao de um joão-bobo e registra três capotagens nos primeiros dias, na corrente próxima à costa africana. O projeto partiu do modelo do Capitaine Cook, utilizado pelo navegador francês Gérard d’Aboville, com adaptações para a viagem de Amyr.

Para se localizar, Amyr utilizava observações astronômicas e um sextante, sem GPS a bordo. Os cálculos tomavam horas, e o balanço dificultava as medições. O rádio mantinha contatos em horários combinados. Além das remadas, a rotina incluía preparar refeições, limpar o barco e dormir no espaço disponível. A alimentação também foi planejada: produtos desidratados e sem sal reduziam peso e volume, como o navegador relatou ao g1.

Filipe Bragança aprendeu a remar e navegar para interpretar Amyr Klink

Em entrevista ao gshow, Filipe Bragança contou que aprendeu técnicas de remo e o uso de instrumentos de navegação baseados na posição do Sol. O treinamento precisava dar ao ator familiaridade com tarefas que, para Amyr, faziam parte da sobrevivência cotidiana no oceano.

A preparação física ocorreu ao longo de três meses, com acompanhamento de personal trainer e nutricionista. Nesse processo, o ator passou de aproximadamente 80 para 68 quilos. A mudança integrou a composição do personagem durante a travessia, junto ao estudo dos gestos, da rotina e do isolamento. Bragança também reservou períodos de recolhimento, sem equipará-los aos cem dias que Amyr viveu sozinho no mar.

O próprio navegador acompanhou aspectos da preparação. Ao PublishNews, Amyr relatou ter conversado várias vezes com Bragança e contou que o barco foi levado à raia da Cidade Universitária, em São Paulo, porque o ator queria dormir dentro dele, no inverno. A intenção era compreender a sensação de permanecer flutuando durante uma noite.

A travessia virou livro antes de chegar ao cinema

Cem Dias entre Céu e Mar foi lançado em setembro de 1985 pela JO Editora, segundo o registro bibliográfico mantido por Amyr. O relato passou depois ao catálogo da Companhia das Letras, que publica a narrativa dos preparativos e da viagem entre Lüderitz e o litoral baiano.

O diário de bordo, os encontros com animais marinhos e as tarefas repetidas no barco compõem o relato. A história também recebeu adaptações para teatro infantil e versões em áudio e formato digital, documentadas pelo autor. O filme acrescenta uma nova forma de narrar a expedição, agora com a presença física de um ator no papel do navegador.

100 Dias chega aos cinemas em outubro

A produção reúne Ventre Studio, Trema Filmes e Boipeba Filmes. A ficha do Festival do Rio lista Buena Vista International, O2 Filmes e Totalpost Finland como coprodutoras. Ao lado de Filipe Bragança, estão Philippine Leroy-Beaulieu, Felipe Camargo, João Vitor Silva, Martha Nowill e Duda Mamberti.

A Buena Vista International Brasil anuncia a chegada aos cinemas em 29 de outubro. Entre a conclusão da travessia, em setembro de 1984, e o lançamento do longa, transcorreram 42 anos. O percurso que ocupou cem dias do diário de Amyr Klink será apresentado em um filme de 116 minutos.