Para acompanhar os modelos, era preciso procurar as roupas entre imagens do próprio público. Uma caixa de espelhos ocupava a passarela da Fendi em Milão, multiplicando corpos, peças e espectadores em reflexos sobrepostos. Apresentada em 23 de setembro de 2026, a coleção Fendi Spring Summer 2027, de Maria Grazia Chiuri, foi vista através de uma estrutura inspirada em Cubo di specchi, de Luciano Fabro.

O desfile integrou a programação oficial da Camera Nazionale della Moda Italiana, com horário marcado para as 14h na Via Solari, 35. A temporada de primavera/verão 2027 da Milan Fashion Week acontece de 22 a 28 de setembro. Na véspera, o Vogue World Milano na Galleria Vittorio Emanuele II havia ocupado outro endereço da cidade, na abertura da semana.

O desfile da Fendi transformou o público em parte da imagem

Os convidados estavam dispostos ao redor da estrutura, enquanto os modelos passavam por dentro dela. A imagem das roupas chegava ao público repetida e difusa, em vez de se oferecer sempre de frente, sem obstáculos. Ao tentar acompanhar uma silhueta, o espectador também encontrava outros convidados e a própria imagem na superfície espelhada.

Luke Leitch, que acompanhou a apresentação para a Vogue, descreveu a sobreposição entre passarela e plateia e a dificuldade de distinguir alguns detalhes das peças. Seu relato registra ainda que, na saída, convidados comentavam a possibilidade de aparecer nos próprios vídeos do desfile. O reflexo participava tanto da observação presencial quanto das imagens produzidas pelos espectadores.

A cenografia alterava, assim, uma condição prática da apresentação: o campo de visão não continha somente a modelo e a roupa. A plateia também permanecia visível. A relação com Fabro estava nessa estrutura espelhada, descrita como inspiração para o cenário, não como a exposição de uma obra original do artista.

A referência vem de Cubo di specchi, de Luciano Fabro

Luciano Fabro foi um artista italiano ligado à Arte Povera, movimento surgido na Itália nos anos 1960. Seu trabalho investigou a escultura e sua relação com o espaço, os materiais e a presença de quem a observa. O Castello di Rivoli Museo d’Arte Contemporanea registra Allestimento teatrale. Cubo di specchi com a datação de 1967 a 1975 em seu arquivo da exposição Arte Povera International.

A cronologia inclui a concepção e a realização da obra. Documentação do Instituto Italiano de Cultura de Nova York situa a concepção de Allestimento teatrale em 1967, para o Teatro Stabile de Turim, e sua execução em 1975. Não se trata, portanto, de uma instalação criada originalmente para um desfile de moda.

Um episódio ajuda a compreender seu funcionamento. Ao reconstruir a trajetória da Galleria Pieroni, o Palazzo delle Esposizioni de Roma documenta a apresentação de Allestimento teatrale em Pescara, em fevereiro de 1975. Um ator permanecia fechado dentro de um cubo de espelhos enquanto recitava um texto teatral.

Esse antecedente pertence à história da obra de Fabro. Na Fendi, a estrutura recebeu modelos e foi utilizada para apresentar uma coleção. A referência artística aproxima duas situações que envolvem corpo, espaço e observação, mas não autoriza descrever a passarela como uma reprodução exata da instalação de 1975.

Maria Grazia Chiuri colocou o corpo no centro da coleção

Na apresentação oficial de Spring/Summer 2027, a Fendi associa a coleção aos desejos dos corpos contemporâneos, descritos como fortes e frágeis ao mesmo tempo. A maison propõe roupas que funcionam como uma segunda pele e aproxima códigos masculinos e femininos para além dos estereótipos de guarda-roupa.

Na roupa, essa proposta apareceu em sutiãs usados como parte visível dos looks, peças curtas de seda com acabamento de renda, vestidos de alças e tecidos transparentes. Houve também vestidos pretos longos com recortes nas costas e ilhoses, franjas de contas, estampas de leopardo e camisas listradas abertas no peito. Alfaiataria e referências à lingerie dividiram a apresentação.

A cobertura do WWD identifica a temporada como o segundo desfile ready-to-wear de Chiuri para a Fendi e descreve a transformação de uma camisa de smoking branca em um top de tiras. A própria maison situa o início de suas coleções na temporada de outono/inverno 2026/27. Entre essas apresentações, a estreia de Chiuri na alta-costura da Fendi em Roma já havia colocado museu e arquivo no contexto de seu trabalho para a casa.

Raffaella Carrà também entrou na narrativa do desfile

A trilha aproximou a apresentação de duas figuras da música e da televisão italianas. Rumore, de Raffaella Carrà, foi combinada a Prisencolinensinainciusol, lançada por Adriano Celentano em 1972. A Vogue relaciona a canção de Celentano, construída com palavras sem significado que imitam a sonoridade do inglês, a uma experiência de comunicação pelo ritmo e pela performance.

Carrà participou de uma das performances televisivas associadas à música. No desfile, a referência reapareceu na trilha e no repertório de Chiuri: o WWD registra a presença da artista no painel de referências da coleção. A música acrescentava uma camada de movimento e memória cultural à apresentação, enquanto os espelhos mantinham os corpos dos modelos e dos espectadores no mesmo campo visual.

Até a Baguette foi reduzida para o tamanho de um telefone

Entre os acessórios, Chiuri mencionou uma nova versão da Fendi Baguette redimensionada para comportar apenas um telefone, conforme o relato de sua conversa com a Vogue. Leitch ressalvou que não conseguiu identificar a peça durante a passagem dos modelos.

O detalhe também registra uma consequência concreta da cenografia: nem todos os elementos da coleção eram imediatamente distinguíveis da plateia. Ao acompanhar a passagem das roupas pelos espelhos, os convidados viam também a si mesmos e uns aos outros. O público permaneceu dentro da imagem que tentava observar.