A Fendi apresentou em Roma a primeira coleção de alta-costura de Maria Grazia Chiuri à frente da maison, em um desfile que articulou moda, museu e memória institucional. A apresentação ocorreu em 9 de julho de 2026 na Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea, segundo The Guardian, e foi acompanhada por duas exposições ligadas à história da casa romana e à presença de Karl Lagerfeld na construção de seu repertório visual.
A estreia de Chiuri na alta-costura da Fendi aconteceu em um momento de reposicionamento criativo para a marca do grupo LVMH. De acordo com The Guardian, a designer associou o desfile a uma discussão sobre a presença da moda italiana em instituições culturais, em contraste com museus internacionais que mantêm programação recorrente dedicada ao vestuário, como o Victoria and Albert Museum, em Londres, o Musée des Arts Décoratifs, em Paris, e o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art, em Nova York.
A escolha de Roma teve papel central na narrativa. A cidade é o local de nascimento de Chiuri e também a origem da Fendi, fundada como casa de peles e artigos de couro e desenvolvida pelas cinco irmãs Fendi, Paola, Carla, Franca, Anna e Alda. A relação entre marca, cidade e patrimônio aproximou o desfile de uma agenda cultural mais ampla, em linha com discussões recentes do luxo sobre savoir-faire francês e preservação de arquivos.
Desfile retomou Lagerfeld em museu de Roma
O desfile foi antecedido pela reativação de uma exposição de 1985 dedicada aos primeiros anos de Karl Lagerfeld na Fendi. A mostra, intitulada “After un percorso di lavoro. Fendi / Karl Lagerfeld 1985. After Steps Through Work”, fica em cartaz de 10 de julho a 25 de outubro de 2026, de acordo com a Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea. A instituição informa que a exposição retoma o projeto histórico apresentado no mesmo museu em 1985.
Segundo The Guardian, Chiuri também conectou o desfile a uma segunda exposição em Roma, dedicada às coleções de alta-costura da Fendi desde 2015. A iniciativa situou a alta-costura como arquivo, linguagem e produção cultural, não apenas como exercício comercial voltado a clientes privados.
Na passarela, a coleção se afastou da silhueta de cintura marcada associada à passagem de Chiuri pela Dior. O trabalho apresentado para a Fendi privilegiou caimentos a partir dos ombros, formas inspiradas em quimonos e construção por drapeado. O mesmo relato do The Guardian descreveu capas, rendas pretas, mangas de referência eclesiástica e peças em tons de marfim como parte da leitura romana da coleção.
Alta-costura, arquivo e estratégia cultural
A estreia também reabriu a discussão sobre o uso de peles no repertório da Fendi. A reportagem do The Guardian informa que houve peles naturais na passarela, reutilizadas de peças e materiais do arquivo da maison. O dado foi tratado na cobertura como parte do desafio da marca em lidar com uma origem histórica ligada à pelaria, em um momento no qual a indústria do luxo enfrenta novas exigências de responsabilidade material e imagem pública.
Chiuri chegou à Fendi depois de uma década na Dior, onde foi diretora criativa entre 2016 e 2025, conforme informou The Guardian. A movimentação reforça a importância das direções criativas dentro do grupo LVMH, tema já observado em coberturas do Begold Journal sobre a relação entre maisons, ateliês e memória corporativa, como na matéria sobre a Fondation Dries Van Noten em Veneza.
A coleção não foi apresentada como ruptura isolada, mas como uma tentativa de inserir a Fendi em uma conversa institucional sobre moda italiana, museus e patrimônio. Ao deslocar a estreia para a Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea e associá-la a exposições, a maison colocou a alta-costura no mesmo campo de debate ocupado por arte, memória e acervo. A estratégia dialoga com discussões recentes sobre repertório cultural e valor simbólico no luxo, tema também tratado na cobertura do Cannes Lions e o papel do gosto nas marcas de luxo.