Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial para o Begold Journal. Não reproduz a obra de Renée Levi nem a fachada real da Hayward Gallery.
Uma pintura de dois painéis em grande escala passou a ocupar a fachada oeste do edifício brutalista da Hayward Gallery, no complexo Southbank Centre, em Londres. Intitulada September (2026), a obra criada pela artista suíça Renée Levi abriu ao público em 23 de setembro e permanece instalada até 15 de novembro de 2026, de acordo com o programação oficial divulgada pelo Southbank Centre. A intervenção transforma o concreto aparente do marco arquitetônico londrino por meio do contraste entre pigmentos fluorescentes, tinta prateada em spray e as linhas estruturais do próprio prédio.
De acordo com a documentação oficial do projeto divulgada pela Art Basel, a instalação representa a primeira grande comissão pública de Renée Levi no Reino Unido. A obra foi realizada como um comissionamento conjunto entre a Hayward Gallery e o Audemars Piguet Contemporary, o programa de arte contemporânea mantido pela tradicional manufatura suíça de alta relojoaria.
Diálogo entre pintura, corpo e arquitetura brutalista
A janela horizontal da fachada tornou-se o centro da composição. De acordo com a entrevista de Renée Levi à Art Basel, a escolha desse ponto do edifício decorreu de sua estrutura: a artista queria incorporar a arquitetura à pintura, sem escondê-la. O vão permanece como parte da organização visual dos dois painéis.
Nascida em Istambul em 1960, criada na Suíça e radicada em Basileia, Levi graduou-se em arquitetura antes de migrar definitivamente para a pintura nas artes visuais. Essa trajetória profissional orienta o modo como a artista relaciona escala, espaço e suporte. De acordo com informações prestadas pela plataforma institucional da Audemars Piguet, o processo de criação de September levou cerca de dois anos de pesquisas técnicas e testes de materiais no ateliê da artista em Basileia, ao lado do colaborador e parceiro técnico Marcel Schmid.
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, apesar da dimensão do projeto urbano, a artista recusa a rotulagem de monumentalidade quando esta implica reduzir a proporção humana. A gestualidade dos traços em spray e das pinceladas expressa a amplitude do movimento dos braços e do corpo de Levi durante o trabalho no piso do estúdio. A escala da instalação preserva o vínculo direto com o espectador, permitindo que o público se aproxime que caminha pelo complexo cultural às margens do Rio Tâmisa.
Soluções materiais e desenvolvimento técnico
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, a exposição direta do painel ao vento britânico e às intempéries de outono exigiu o abandono do linho tradicional, suporte habitual nas telas de ateliê de Levi. A artista e a equipe técnica optaram por uma malha sintética microperfurada, material utilizado em painéis industriais de grande formato. A perfuração da malha permite a passagem do ar, reduzindo a pressão do vento sobre a estrutura de fixação montada na fachada.
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, a escolha do suporte sintético trouxe um desafio de fixação dos pigmentos. Após testes de aderência, a artista aplicou cinco tintas acrílicas fluorescentes selecionadas após os testes, combinadas com jatos de tinta spray prateada. A tinta prateada altera sua refletividade conforme a variação da luz solar e a posição do observador, alternando entre tons escuros opacos e brilhos metálicos ao longo do dia.
Marcel Schmid trabalhou com engenheiros na estrutura e na malha, de acordo com o relato de Levi à Art Basel. O planejamento estabeleceu quais trechos precisavam permanecer abertos para a passagem do vento e quais podiam receber uma camada de preparação. Resolvidas essas condições, a artista pôde se concentrar na pintura.
Audemars Piguet Contemporary: o papel do mecenato institucional
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, a intervenção na Hayward Gallery ressalta a atuação do Audemars Piguet Contemporary como agente mecenas no circuito global de arte visual. Criado em 2012, o programa opera de forma nômada e comissiona trabalhos inéditos de artistas internacionais em colaboração com museus, bienais e instituições culturais independentes, com obras que permanecem pertencentes aos artistas.
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, a curadora do programa, Audrey Teichmann, acompanhou a evolução do projeto ao lado de Yung Ma, curador da Hayward Gallery. O foco da comissão esteve voltado para viabilizar pesquisas de linguagem que demandam suporte financeiro, logístico e engenharia especializada. Segundo Audrey Teichmann, é a primeira comissão do programa a um artista cuja prática se concentra principalmente na pintura.
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, o impacto de transformar temporariamente a arquitetura de instituições consagradas aproxima a intervenção em Londres de outras experiências recentes no continente europeu, como a ocupação promovida por Laure Prouvost na nave do Grand Palais em Paris.
O significado de September no espaço urbano de Londres
De acordo com a entrevista publicada pela Art Basel, o título September refere-se tanto a um nome próprio feminino na língua inglesa quanto ao mês de inauguração da obra. Segundo a artista, a escolha do nome carrega uma dimensão poética e fonética, construída ao longo dos dois anos em que permaneceu mentalmente conectada à cidade de Londres durante a fase de concepção do trabalho.
A apresentação de September termina em 15 de novembro de 2026, de acordo com a programação publicada pela Art Basel. O trabalho ocupa o exterior da Hayward Gallery, no Southbank Centre. A exposição temporária pode ser vista por quem circula pelo espaço público, inclusive por pessoas que não foram à região para visitar uma mostra.
Uma pintura realizada no chão do ateliê
O trabalho foi pintado no chão do estúdio de Levi em Basileia, de acordo com sua entrevista à Art Basel. O espaço tem cerca de 15 metros de comprimento, o que permitiu trabalhar quase em escala real. A artista considerou alugar um lugar maior, mas decidiu permanecer no ambiente em que podia experimentar durante o desenvolvimento da obra.
O processo começou com pequenos desenhos a lápis. De acordo com a mesma entrevista, Schmid transformou os esboços em visualizações por computador, utilizadas para testar como a composição funcionaria na dimensão da fachada. Essas etapas antecederam a pintura e a instalação, em um projeto desenvolvido durante aproximadamente dois anos.
O uso da arquitetura como parte de uma instalação também aparece na reportagem do Begold Journal sobre Laure Prouvost na nave do Grand Palais. No projeto de Levi, a janela e o concreto da Hayward permanecem incorporados à composição, de acordo com a entrevista da artista à Art Basel.