Um botão de rosa ainda fechado foi o ponto de partida de Bocciolo, coleção em vidro soprado desenvolvida pela designer brasileira Bruna Horn entre Milão e Murano. Em setembro, novos acabamentos do trabalho chegaram ao Monaco Yacht Show 2026, realizado de 23 a 26 de setembro em Port Hercule, no Principado de Mônaco.

A apresentação colocou o trabalho da brasileira em um contexto conhecido pela concentração de grandes estaleiros, designers, fornecedores e profissionais ligados ao universo dos superiates. Em 2026, o evento chegou à 35ª edição, e Port Hercule recebe a exposição desde 1991.

O percurso de Bocciolo, porém, começou longe dos píeres de Port Hercule.

Bocciolo, coleção em vidro soprado de Murano da designer brasileira Bruna Horn, em versão translúcida com estrias verticais e bordas escuras sobre fundo cinza
Bocciolo em vidro soprado translúcido. Foto: Divulgação / Bruna Horn

Dos jardins de Milão ao vidro

Durante uma temporada de estudos no Istituto Marangoni, em Milão, Horn passou a observar os botões de rosa durante caminhadas pelo Giardini Indro Montanelli. Pelo relato da designer, os trajetos quase diários incluíam também a Piazza Eleonora Duse, no entorno do parque.

O interesse estava justamente no momento anterior à abertura da flor. A forma compacta, as pétalas ainda fechadas e a transformação gradual da planta deram origem à pesquisa que resultaria em Bocciolo. O nome vem da palavra italiana para “botão de flor”.

Horn associa essa observação a uma fase de mudança pessoal. “Eu estava vivendo uma transição importante e não sabia exatamente o que viria depois. Comecei a perceber que aquele botão tinha muito a ver com o que eu estava vivendo”, conta. Segundo a designer, acompanhar os botões ao longo de dias de sol, chuva e variação de temperatura, até que finalmente se abrissem, acabou se aproximando daquele momento de sua trajetória.

Em vez de reproduzir literalmente uma rosa, a coleção transforma essa referência em volumes arredondados e superfícies verticais, utilizando a transparência e as variações do vidro como parte da composição. A Miami Living descreve a silhueta suavemente curvada da peça como uma tradução, em vidro soprado, da forma de uma flor prestes a desabrochar.

Peça da coleção Bocciolo de Bruna Horn em vidro soprado verde, com pétalas fechadas e textura vertical
Versão em vidro verde da coleção Bocciolo. Foto: Divulgação / Bruna Horn

O desenvolvimento em Murano

Para levar o desenho ao vidro soprado, o projeto avançou até Murano, ilha da Lagoa de Veneza ligada há séculos à produção artesanal do material.

Segundo o relato fornecido pela própria designer, o desenvolvimento envolveu sucessivas viagens, protótipos e testes. Antes de definir a oficina e o maestro vidreiro com quem o projeto avançaria, Horn passou por quatro fornaci, como são chamadas as oficinas vidreiras da ilha. A distância entre Miami, onde ela vive, e Murano estendeu o prazo imaginado no início, e os ajustes de proporção se somaram às idas e vindas entre os dois lados do Atlântico.

A aproximação com os artesãos teve a participação de um amigo veneziano, identificado pela designer apenas como Francesco, que a apresentou a profissionais da comunidade vidreira local. A fabricação manual faz com que pequenas diferenças de superfície, profundidade e reflexão permaneçam visíveis nas peças.

Horn descreve esse processo como uma colaboração entre desenho e matéria. “Eu sabia quais elementos do desenho precisava preservar, mas também aprendi a deixar espaço para o material e para a experiência dos maestri. O vidro sempre participa da decisão”, afirma.

Massa de vidro incandescente sustentada por uma cana diante da boca de um forno em oficina de vidro soprado
Etapa de trabalho com vidro soprado diante do forno. Foto: Divulgação / Bruna Horn

A relação com Murano não é inédita em seu trabalho. Durante a Milan Design Week 2026, a brasileira apresentou na Piloto Milano a coleção Aurora, formada por luminárias de piso e arandelas feitas à mão em aço inoxidável polido ou latão polido, com difusores em vidro de Murano. A série tem o racionalismo italiano como referência.

A participação integrou a exposição Echoes of Elsewhere, montada de 20 a 26 de abril na Residenza Vignale, na Via Enrico Toti, dentro do distrito 5VIE. A Piloto Milano apresentou a estreia de Horn na semana de design de Milão como sua introdução formal à cena europeia.

No mesmo espaço, a Piloto Milano registrou Bocciolo como obra de 2025: um vaso em vidro soprado produzido com a técnica de Murano, que explora forma e profundidade cromática. A peça, portanto, já integrava o trabalho da designer antes de Mônaco, onde a coleção chegou em uma nova etapa, com novos acabamentos.

Bocciolo em Mônaco

No Monaco Yacht Show 2026, o trabalho foi apresentado ao lado de obras do artista Opoggio. De acordo com a Miami Living, os novos acabamentos ampliam a expressão original da série e dão continuidade à pesquisa de Horn sobre cor, material e a relação entre natureza e design, com uma paleta que se expandiu desde a primeira versão.

O contexto deslocou Bocciolo para um ambiente no qual design de interiores, mobiliário, arte e objetos de produção artesanal convivem diretamente com o universo dos superiates. A edição de 2026 do Monaco Yacht Show aconteceu durante quatro dias em Port Hercule, de 23 a 26 de setembro.

Radicada em Miami, Horn estudou design de interiores na Escola Panamericana de Arte e Design, em São Paulo, e passou pelo New York Institute of Art and Design antes da especialização no Istituto Marangoni, de acordo com seu site oficial. Antes de abrir o próprio estúdio, trabalhou por mais de uma década em uma empresa brasileira de design de alto padrão com operação no sul da Flórida.

Para Horn, a chegada da coleção a Mônaco encerra temporariamente um percurso iniciado durante caminhadas cotidianas em Milão e desenvolvido através da tradição vidreira de Murano. “Quando penso que tudo começou observando um pequeno botão durante uma caminhada em Milão e agora Bocciolo chega a Mônaco, existe algo quase surreal nesse percurso”, diz.

A escala do objeto pode ser pequena diante dos iates atracados em Port Hercule, mas sua história parte justamente de um detalhe ainda menor: o instante em que uma flor permanece fechada antes de começar a se abrir.