A Ferrari construiu seu primeiro automóvel totalmente elétrico sem tentar imitar artificialmente o som de um V8 ou de um V12.

No Ferrari Luce, sensores de alta precisão captam vibrações mecânicas produzidas pelo próprio conjunto elétrico. Essas vibrações são amplificadas para fornecer ao motorista uma resposta sonora ligada ao que realmente está acontecendo no sistema de propulsão.

É um detalhe técnico particularmente simbólico para uma marca cuja identidade foi construída, durante décadas, também pelo som de seus motores.

O Luce inaugura a fase totalmente elétrica da Ferrari com números que permanecem dentro do território de alto desempenho da casa: mais de 1.000 cv em modo boost, aceleração de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos e velocidade máxima declarada de 310 km/h.

Quatro motores elétricos

A arquitetura utiliza dois eixos elétricos desenvolvidos internamente pela Ferrari.

Cada eixo reúne dois motores síncronos de ímãs permanentes com rotores em arranjo Halbach.

O eixo dianteiro pode entregar 210 kW, enquanto o traseiro chega a 620 kW. Em modo boost, a potência total supera 1.000 cv.

A Ferrari informa eficiência máxima de 93% para os conjuntos.

A eletrônica também trabalha em alta frequência. A unidade de controle do veículo atualiza parâmetros dinâmicos 200 vezes por segundo para administrar suspensão, tração e direção.

Bateria de 122 kWh

A bateria foi projetada e montada em Maranello.

Sua capacidade bruta é de 122 kWh e a arquitetura elétrica trabalha com tensão máxima de 880 V. A potência máxima de recarga declarada chega a 350 kW.

Segundo os dados técnicos apresentados pela Ferrari, a autonomia supera 530 quilômetros.

O conjunto tem densidade energética próxima de 195 Wh/kg no nível do pack.

O veículo pesa aproximadamente 2.300 kg e tem entre-eixos de 2.960 mm.

O som não tenta reproduzir combustão

A decisão acústica é um dos elementos mais curiosos do projeto.

Em vez de criar digitalmente a reprodução de um motor tradicional, a Ferrari usa um sensor para captar vibrações físicas geradas pelos componentes do powertrain elétrico.

Esse sinal é então amplificado.

A lógica se aproxima mais de transformar o próprio mecanismo em instrumento do que de instalar uma trilha sonora artificial sobre a aceleração.

O recurso permite que a resposta sonora varie com o comportamento real do sistema.

Três modos de condução

O Luce trabalha com três modos principais de condução: Range, Tour e Performance.

Eles alteram a maneira como energia, potência e tração são administradas.

As borboletas atrás do volante, tradicionalmente associadas às trocas de marcha em automóveis esportivos, ganharam outra função. No elétrico, permitem selecionar níveis progressivos de torque e potência, tentando preservar uma sensação de envolvimento do motorista mesmo sem uma transmissão convencional de múltiplas marchas.

Um carro de cinco lugares

O Ferrari Luce também rompe com a imagem tradicional da berlinetta baixa de dois lugares.

O modelo revelado em 2026 tem quatro portas e cinco lugares.

A combinação aproxima o primeiro elétrico da marca de um uso cotidiano maior do que aquele associado aos supercarros mais extremos do catálogo.

Em julho de 2026, o CEO Benedetto Vigna afirmou que a Ferrari estava satisfeita com a recepção comercial do modelo e que os pedidos avançavam dentro das expectativas da companhia.

A parte mais difícil da eletrificação

Para uma fabricante de automóveis de luxo, transformar eletricidade em desempenho é apenas parte do problema.

A outra é preservar sensações que ajudaram a construir a identidade da marca.

No caso da Ferrari, poucas são tão reconhecíveis quanto o som.

A solução do Luce não tenta fingir que um conjunto elétrico é um V12. Ela parte daquilo que efetivamente existe no carro: vibrações mecânicas, rotação e carga.

É nesse detalhe que a primeira Ferrari elétrica revela uma escolha editorialmente mais interessante do que apenas potência ou velocidade. O carro entra na era elétrica procurando uma voz própria.