Em sua 149ª largada na Copa do Mundo de Esqui Alpino, Paula Moltzan finalmente venceu. E precisou de toda a precisão do cronômetro para isso. Em 24 de outubro de 2026, no glaciar Rettenbach, em Sölden, na Áustria, a americana de 32 anos conquistou o slalom gigante feminino por 0,01 segundo sobre Lara Colturi, atleta italiana de nascimento que compete pela Albânia. A alemã Emma Aicher completou o pódio.
O resultado foi decidido depois de duas descidas em uma pista de alta montanha. Moltzan acumulou 2min14s82; Colturi terminou um centésimo atrás, enquanto Aicher ficou a 0,52 segundo da vencedora. Para uma prova que mobiliza meses de treinamento, preparação física e desenvolvimento de equipamento, a diferença entre primeiro e segundo lugar coube na menor unidade normalmente exibida no placar.
Mas a margem não foi o único elemento improvável. Moltzan estava em quinto lugar depois da primeira descida, mudou de material para esta temporada e estreou na competição com esquis Van Deer, marca ligada ao austríaco Marcel Hirscher. Até aquele sábado, a americana havia chegado dez vezes ao pódio da Copa do Mundo sem vencer.
A virada começou quando a neve piorou
A manhã no glaciar tinha outra favorita à frente. Mikaela Shiffrin, compatriota de Moltzan e uma das grandes referências do esqui alpino, liderava a primeira descida. Moltzan havia terminado a 0,59 segundo dela, uma diferença relevante para a disputa de alto nível.
Na segunda etapa, o tempo mudou. Neve, vento e luminosidade instável reduziram a visibilidade, sobretudo para as atletas que haviam sido mais rápidas de manhã e, por isso, saíam por último na rodada decisiva. Moltzan atacou o trecho inclinado e sustentou o tempo suficiente para permanecer à frente das adversárias que vieram depois.
Colturi, que estava em sexto na primeira descida, também avançou fortemente e chegou a ameaçar a liderança. Sua recuperação terminou por um centésimo. Shiffrin, última a descer na ordem decisiva, não conseguiu manter a vantagem construída de manhã e encerrou o dia em sétimo. A vitória da americana que havia começado na quinta posição se confirmou somente após a passagem das últimas competidoras.
O desfecho revela uma particularidade do slalom gigante: são duas descidas somadas, não uma corrida decidida em um único percurso. O traçado pode mudar entre as etapas, assim como a neve, o vento e a visibilidade. Uma atleta não precisa registrar o melhor tempo isolado em cada uma delas para ganhar. Precisa administrar melhor o conjunto.
A pista de Sölden começa acima dos 3 mil metros
O cenário contribui para a dimensão técnica da disputa. A pista de Copa do Mundo fica no glaciar Rettenbach, nas montanhas do Tirol austríaco. Conforme os dados divulgados pela organização de Sölden, o traçado de referência começa a aproximadamente 3.040 metros de altitude e termina a 2.670 metros, com 370 metros de desnível e extensão de cerca de 1.198 metros.
O trecho mais inclinado chega a 68,2% de declividade, medida em porcentagem, não em graus. A rota alterna uma seção inicial mais plana, uma parede íngreme e a área final, exigindo que as atletas mantenham velocidade e direção enquanto contornam as portas do percurso.
Não se trata de uma pista improvisada para um evento de fim de semana. Sölden recebe a abertura tradicional da temporada internacional de slalom gigante e coloca mulheres e homens na mesma encosta, em competições realizadas em dias diferentes. O calendário de 2026 reservou o sábado, 24 de outubro, para a prova feminina e o domingo, 25, para a masculina.
Essa condição permite entender por que pequenas variações de clima podem mudar tanto o resultado. Em uma corrida acima dos 2.600 metros de altitude, luz difusa, neve recente ou rajadas de vento interferem no modo como os atletas percebem o relevo e escolhem as linhas de descida.
A primeira mulher a vencer com esquis Van Deer
Há um segundo capítulo na vitória de Moltzan que não aparece imediatamente no placar. Ela disputou a abertura de Sölden com equipamento Van Deer, depois de anos utilizando outra fabricante. Segundo a Federação Internacional de Esqui e Snowboard, FIS, foi a primeira mulher a competir com a marca nesse nível, e sua vitória ocorreu logo na estreia.
Van Deer está associada ao ex-esquiador austríaco Marcel Hirscher, campeão de oito títulos gerais consecutivos da Copa do Mundo. A mudança de fornecedora levou Moltzan a um período de ajustes técnicos e desenvolvimento de material durante a preparação para a temporada.
A fabricante passou a integrar a narrativa da vitória logo na primeira prova, mas o desempenho no esqui de competição depende da combinação entre técnica, preparação, escolha de linhas e condições da montanha. Numa disputa decidida por centésimos, a adaptação ao material também faz parte do trabalho fora das pistas.
Em Sölden, a coincidência foi particularmente expressiva: primeira competição com os novos esquis, primeira vitória da atleta e uma margem de apenas um centésimo.
De Minnesota ao primeiro lugar na Copa do Mundo
A trajetória de Moltzan ajuda a colocar o resultado em perspectiva. Nascida em 1994 e criada em Minnesota, nos Estados Unidos, a atleta se formou nas pistas do Buck Hill Ski Racing Club. Em 2015, venceu o slalom do Campeonato Mundial Júnior em Hafjell, na Noruega, tornando-se a primeira americana a conquistar o ouro nessa prova na competição.
Nos anos seguintes, passou pela Universidade de Vermont, onde também disputou o circuito universitário. Em 2017, conquistou o título nacional universitário de slalom da NCAA; retornou à equipe americana para competir internacionalmente em 2018. O caminho até a elite, portanto, não foi uma sequência ininterrupta de vitórias.
O primeiro pódio de Copa do Mundo veio na prova paralela de Lech Zürs, na Áustria, em 2020. Depois houve outros resultados de destaque no slalom e no slalom gigante, incluindo bronze no slalom gigante no Mundial de 2025. Nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, ganhou bronze na prova combinada por equipes femininas com Jackie Wiles, de acordo com o perfil da federação americana.
Essa sequência esclarece por que a conquista de Sölden é diferente de um sucesso inesperado de uma estreante. Moltzan já competia há anos entre as melhores da modalidade. O que faltava era transformar um de seus pódios em vitória.
Um fim de semana com dois vencedores marcantes
A etapa do Tirol também colocou em evidência a diversidade de trajetórias no esqui alpino. No domingo, 25 de outubro, o brasileiro Lucas Pinheiro Braathen venceu a prova masculina de slalom gigante no mesmo glaciar, 0,48 segundo à frente do suíço Loïc Meillard, conforme o relato oficial da FIS.
As duas corridas não devem ser confundidas: Moltzan ganhou no sábado, na disputa feminina, enquanto Lucas venceu no domingo, na masculina. Juntas, explicam por que a abertura de Sölden ganhou interesse além do circuito habitual do esporte.
Para Moltzan, o significado daquele sábado permanece singular. Aos 32 anos, depois da experiência universitária, de uma medalha olímpica, de dez pódios anteriores e de 149 participações na Copa do Mundo, a americana cruzou a linha com o tempo necessário para finalmente vencer. Por um centésimo, o segundo lugar ficou do outro lado do cronômetro.