Na villa privada em Kyoto conhecida como Chisui-an, o jardim ocupa a maior parte do terreno. A propriedade tem cerca de 1.400 m², dos quais aproximadamente 1.000 m² correspondem à área paisagística. A residência histórica soma aproximadamente 360 m², distribuídos em dois pavimentos, e divide o terreno com uma casa de chá separada. O endereço permanece fechado ao público.
Localizada em Sakyo, na região de Nanzen-ji, no leste de Kyoto, Chisui-an é uma residência secundária tradicional japonesa, ou bettei, pertencente ao empresário e colecionador Yusaku Maezawa. O imóvel data do século XIX e passou por um processo de restauração e adaptação que durou sete anos.
A intervenção preservou marcas de idade, materiais e métodos construtivos, ao mesmo tempo que incorporou sistemas contemporâneos. A duração do trabalho está ligada a decisões tomadas em escala arquitetônica, paisagística e artesanal, muitas delas perceptíveis apenas a partir de pontos específicos dentro da casa.
Villa privada em Kyoto integra a tradição residencial de Nanzen-ji
A localização da Chisui-an faz parte da história do projeto. De acordo com a Ueyakato Landscape, responsável pelo jardim, a propriedade integra a concentração de villas privadas construídas na região de Nanzen-ji por integrantes das elites políticas e econômicas japonesas a partir do final do século XIX.
Essa cultura residencial estabeleceu uma relação direta entre arquitetura, jardim, cerimônia do chá e apreciação estética. A casa não funciona como volume isolado diante da vegetação. Portas, varandas, painéis, guarda-corpos e posições de assento interferem na maneira como o jardim é percebido.
Uma referência pública desse conjunto é Murin-an, construída entre 1894 e 1896 para o estadista Yamagata Aritomo. De acordo com o órgão oficial Kyoto Travel, sua residência principal segue o estilo sukiya-zukuri e mantém integração visual com o jardim. Murin-an é a única propriedade entre as villas-jardim do entorno de Nanzen-ji aberta ao público durante todo o ano.
Chisui-an permanece inacessível ao visitante comum. A documentação do projeto, contudo, mostra como a restauração foi conduzida a partir de enquadramentos, materiais e gestos relacionados à experiência cotidiana de quem ocupa a residência.
Restauração reuniu arquitetura, carpintaria sukiya e paisagismo
A arquitetura ficou sob responsabilidade de Hiroshi Nakamura, do NAP Architectural Design Office. A execução foi confiada à Nakamura Sotoji Komuten, especializada em carpintaria sukiya. O projeto, o desenho e a construção do jardim ficaram com a Ueyakato Landscape, que registra o período de intervenção paisagística entre 2019 e 2025.
Restrições aplicáveis ao imóvel impediram uma ampliação estrutural da residência. Sistemas de ar-condicionado e aquecimento sob o piso precisaram ser incorporados à construção histórica sem alterar sua linguagem. Um deck de madeira entalhada foi acrescentado junto ao jardim, com banho ao ar livre executado em pedra Shirakawa.
A carpintaria sukiya depende da escolha e da leitura individual das peças de madeira, do equilíbrio visual e de decisões que não se limitam ao desenho técnico. Na Chisui-an, o conhecimento aparece em encaixes, treliças, painéis, acabamentos e elementos de escala reduzida que se integram à estrutura preexistente.
O processo de transmissão desse conhecimento foi analisado em estudo publicado em março de 2026 no Bulletin of Takenaka Carpentry Tools Museum. De acordo com a pesquisa, baseada em entrevista de história oral com o mestre carpinteiro Shiro Masuda, da Nakamura Sotoji Komuten, a formação envolve leitura das características da madeira, julgamento visual e conhecimento prático transmitido entre gerações.
Jardim foi desenhado a partir de quem observa de dentro da casa
Antes da intervenção, a Ueyakato estudou as árvores existentes, os elementos de água, os limites da propriedade e a relação visual do terreno com jardins vizinhos. O levantamento orientou reparos nas margens de pedra, novas plantações, mudanças topográficas e ajustes em componentes históricos.
O jardim passou a reunir relevo ondulado, pinheiros-vermelhos japoneses, uma cerejeira-chorão, lago e cascata de três níveis. O posicionamento das árvores considerou pontos de observação dentro da residência. De acordo com a Architectural Digest, algumas posições foram definidas com precisão milimétrica para controlar a paisagem vista dos ambientes.
Até o guarda-corpo de madeira de uma passagem junto à varanda foi rebaixado para evitar interferência no campo visual de alguém sentado sobre o tatame. A decisão materializa o princípio teioku ichinyo, associado à concepção de casa e jardim como uma unidade.
Também aparece o conceito de shakkei, ou “paisagem emprestada”. Portas de correr e aberturas enquadram o exterior e incorporam vegetação, água e relevo à composição dos interiores. A percepção muda conforme o observador se desloca ou altera a altura do olhar.
Ilha em forma de tartaruga e ponte próxima à água
No centro do jardim, o lago contém uma pequena ilha artificial desenhada na forma de uma tartaruga, símbolo de longevidade na tradição japonesa. Uma ponte de pedra preexistente foi preservada, recebeu perfil mais delgado e foi aproximada da superfície para produzir a impressão de flutuar sobre a água.
O projeto considerou também a experiência noturna. A Ueyakato incorporou iluminação, som da cascata e controle do volume de água às decisões paisagísticas. Lanternas feitas para a propriedade iluminam a vegetação e, em determinadas noites de lua cheia, o reflexo lunar pode ser observado na superfície do lago.
A história da empresa responsável pelo jardim antecede a cultura residencial que transformou a região. De acordo com a Ueyakato Landscape, sua origem remonta a 1848, quando Kichibei Kato se tornou jardineiro do templo Nanzen-ji. A companhia é presidida atualmente por Tomoki Kato, representante da oitava geração da família.
A continuidade reúne duas cronologias. Uma família de jardineiros que começou a atuar em Nanzen-ji em meados do século XIX participou, quase dois séculos depois, da restauração de uma villa ligada à cultura residencial estabelecida na região no final daquele mesmo século.
Painéis receberam mármore italiano com 3 milímetros
Uma das intervenções mais delicadas está nos painéis que ocupam a sala. Estruturas de cedro associadas aos tradicionais shoji receberam lâminas de mármore italiano translúcido com apenas 3 milímetros de espessura, em substituição ao papel empregado normalmente nesse tipo de fechamento.
A solução foi adotada para aumentar a privacidade e melhorar o isolamento acústico. Segundo o arquiteto Hiroshi Nakamura, em declaração publicada pela Architectural Digest, somente cerca de 30% das placas resistiam ao processo de redução da espessura. A taxa de perda ajuda a dimensionar o grau de dificuldade de um elemento que, depois de instalado, aparece como uma superfície leve dentro da sala.
Outras alterações reinterpretaram os interiores sem apagar sua estrutura. O banho aberto em pedra Shirakawa se volta para o jardim. Na sala e no quarto, pisos receberam carpetes de seda feitos sob medida. Sistemas técnicos foram ocultados para preservar proporções, materiais e linhas visuais.
Noguchi, Royère e Hermès ocupam a residência do século XIX
A preservação da arquitetura japonesa convive com peças modernas e ocidentais de design da coleção de Maezawa. A sala reúne um sofá Cloud-form de Isamu Noguchi, mesa e luminária de Jean Royère. No quarto, escrivaninha e cadeira de mogno de Alexandre Noll, datadas de 1967, aparecem ao lado de uma luminária Cadenas da Hermès produzida nos anos 1950.
Outros elementos ampliam a cronologia da propriedade. No jardim, uma lanterna de pedra coberta de musgo é datada de 1697. Uma bacia de água foi esculpida em pedra de fundação reaproveitada e atribuída ao período Heian, iniciado em 794.
O projeto reúne objetos centenários, materiais históricos, carpintaria tradicional, sistemas contemporâneos e design do século XX. As peças não foram organizadas para simular uma casa congelada em determinada época. Elas registram períodos distintos dentro de uma residência que continua em uso.
Obra foi concluída, mas o jardim continua em transformação
Após sete anos de restauração e adaptação, a Chisui-an pode ser descrita como concluída enquanto obra arquitetônica. Para os responsáveis pelo paisagismo, essa definição não encerra o trabalho do jardim.
Na apresentação oficial do projeto, a Ueyakato afirma que um jardim de villa nunca está efetivamente terminado. A vegetação cresce, os materiais envelhecem, as estações alteram a paisagem e as preferências de quem vive no local também podem mudar. O período registrado entre 2019 e 2025 representa, nessa lógica, uma etapa de manutenção e transformação contínuas.
A condição sintetiza a restauração da villa privada em Kyoto. A residência do século XIX levou sete anos para ser adaptada, mas a relação entre casa, jardim e passagem do tempo impede que a propriedade permaneça visualmente igual depois de pronta.