O endereço do bar brasileiro mais bem colocado no ranking internacional de 2026 não se anuncia com uma fachada monumental. Para chegar ao Exímia, em São Paulo, o visitante entra pelo restaurante Locale Trattoria, no Itaim Bibi, e sobe até um espaço de cerca de 40 lugares. O balcão e as mesas ocupam um mezanino com vista para a operação gastronômica do andar inferior. É nesse formato reduzido, adotado depois de uma mudança de endereço, que a casa acaba de alcançar o 20º lugar entre os melhores bares do mundo.
O resultado foi divulgado em 7 de outubro de 2026, durante uma cerimônia em Milão. A classificação oficial do The 50 Best Bars coloca o Exímia na 20ª posição e o Tan Tan, também paulistano, na 35ª. São os dois representantes brasileiros entre os 50 primeiros. A colocação do Exímia tem outra particularidade: em 2025, a casa aparecia em 61º na lista ampliada, o que significa uma subida de 41 posições em um ano.
Da 61ª posição ao grupo dos 20 primeiros
A edição de 2026 registra a primeira entrada do Exímia entre os 50 colocados da lista principal. A trajetória é relativamente curta: a casa foi aberta em 2024 e apareceu pela primeira vez na classificação ampliada no ano seguinte. O registro de 2025, disponível na publicação histórica da premiação, já mencionava os coquetéis preparados com ingredientes brasileiros como amburana e cambuci e a participação da chef Manu Buffara na cozinha.
A alta no ranking coincide com uma etapa de transformação física. O bar começou a funcionar em um imóvel maior, na Rua Doutor Mário Ferraz, e passou a atender em novo endereço em abril de 2026. Desde então, está instalado no segundo piso do Locale, na Rua Manuel Guedes, 369. A reportagem publicada pela CNN Brasil na reabertura identificou 9 de abril como a data do retorno das atividades.
A redução de escala é relevante para entender a experiência atual. Segundo a visita do crítico Saulo Yassuda publicada pela VEJA SÃO PAULO em 8 de outubro, o acesso acontece por uma escada ao lado do restaurante. No mezanino, o público se distribui entre balcão e mesas altas, algumas voltadas para o movimento do salão inferior. A organização do espaço difere das fotografias da primeira unidade que ainda circulam na internet.
O repertório brasileiro dentro do copo
O sócio e bartender Márcio Silva conduz a coquetelaria do Exímia. A proposta parte de ingredientes, técnicas e referências culturais do Brasil, mas não se limita a reproduzir receitas tradicionais. O perfil da casa no The 50 Discovery apresenta a diversidade brasileira como eixo do projeto e cita insumos como amburana e cambuci, observados pelo bartender em sua pesquisa sobre sabores e tradições do país.
Esses ingredientes têm funções diferentes. A amburana é associada a aromas e notas de especiarias; o cambuci, fruta nativa da Mata Atlântica, oferece acidez. A decisão de usá-los num drinque não transforma automaticamente a bebida em interpretação de um prato regional. O que distingue a carta é a maneira como o bar articula referências conhecidas e técnicas contemporâneas para produzir novos perfis de sabor.
Um exemplo concreto é o Quebra-queixo, descrito na crítica da VEJA SÃO PAULO: a receita reúne rum, um toque de cachaça, limão, vinho chardonnay, cocada quebra-queixo e licor de coco. A presença do doce brasileiro dá uma referência reconhecível a uma composição que também recorre a vinho e destilados. Na visita publicada em outubro, o drinque custava R$ 54; esse é um preço registrado naquela ocasião, não uma cotação permanente do cardápio.
A seção sem álcool também recebeu atenção do crítico. O Palomita combina morango, refrigerante de grapefruit, hibisco e cordial de pipoca. Esse exemplo ajuda a mostrar que a proposta autoral não depende necessariamente de bebidas destiladas, embora os coquetéis alcoólicos sejam centrais para a identidade do bar.
A passagem de Manu Buffara pela cozinha
A chef Manu Buffara participou do projeto gastronômico, ao lado de Márcio Silva e dos irmãos Gabriel e Nicholas Fullen, ligados ao Grupo Locale. O menu foi reformulado em 2026. Na cobertura publicada pela Esquire Brasil em setembro, a nova etapa é apresentada como uma seleção de pratos e petiscos desenvolvidos em diálogo com a coquetelaria da casa. Em 26 de setembro de 2026, a chef encerrou sua sociedade com o Exímia, que permanece sob o comando de Márcio Silva, Gabriel Fullen e Nicholas Fullen.
Isso altera a leitura do Exímia como destino. Embora o ranking seja dedicado a bares, a cozinha integra o projeto, e não aparece apenas como uma oferta lateral para acompanhar bebidas. A parceria entre bartender e chef esteve presente desde a trajetória inicial do endereço até o encerramento da sociedade, em setembro de 2026. O resultado é um serviço em que as escolhas à mesa podem conversar com ingredientes e aromas encontrados no copo, sem que seja necessário apresentar todo pedido como uma harmonização fixa.
O reconhecimento também precisa ser interpretado com precisão. A lista do The 50 Best Bars não concede estrelas e não utiliza os mesmos critérios dos guias de restaurantes. Na reportagem do Begold Journal sobre o Smyth, eleito o melhor restaurante da América do Norte em 2026, a premiação é gastronômica e regional. O caso do Exímia envolve uma votação internacional específica sobre experiências em bares.
Como funciona a votação mundial
A organização do The 50 Best Bars explica seu processo de votação: são mais de 800 especialistas distribuídos por 29 regiões geográficas. Cada integrante da academia vota em oito bares que visitou nos 18 meses anteriores. Não existe uma lista predefinida de critérios ou uma candidatura voluntária dos estabelecimentos.
Esse modelo significa que a 20ª colocação corresponde à avaliação coletiva de profissionais e viajantes especializados participantes da academia. Não constitui uma medida absoluta de qualidade, nem prova que todos os bares do mundo tenham sido visitados. A classificação é, ainda assim, uma referência internacional importante para quem acompanha o setor e ajuda a explicar por que um endereço pequeno do Itaim Bibi passou a integrar roteiros de coquetelaria.
A lista de 2026 tem como primeiro colocado o Bar Leone, de Hong Kong, seguido pelo Moebius Milano, de Milão, e pelo Alquímico, de Cartagena. Entre as cidades sul-americanas, além de São Paulo, Buenos Aires, Medellín, Lima e Cartagena figuram nas primeiras 50 posições. A presença de estilos e origens diferentes torna mais significativo o recorte de uma casa que escolheu apresentar ingredientes brasileiros em suas receitas.
O que saber antes de visitar
O Exímia fica na Rua Manuel Guedes, 369, segundo piso, Itaim Bibi, São Paulo. O perfil atualizado pela VEJA SÃO PAULO informa funcionamento de terça-feira a sábado, com fechamento aos domingos e às segundas-feiras. Horários, disponibilidade e valores de carta devem ser reconfirmados diretamente antes da visita.
O dado que merece permanecer depois do anúncio do ranking é a combinação entre formato e proposta: um bar de aproximadamente 40 lugares, agora em um mezanino, ocupa o 20º lugar de uma votação internacional que reúne centenas de especialistas. Para quem tem interesse em conhecer o Exímia, o melhor ponto de partida é observar o trabalho de Márcio Silva com ingredientes brasileiros e como a cozinha participa desse percurso.