O título promete 36 paisagens, mas a série completa contém 46 gravuras. A aparente contradição acompanha uma das obras mais conhecidas da história da arte japonesa e ajuda a explicar seu sucesso desde o século XIX. Em Londres, a Dulwich Picture Gallery abriu em 20 de outubro de 2026 uma exposição que reúne, pela primeira vez no Reino Unido, todas as imagens de Trinta e seis vistas do Monte Fuji, de Katsushika Hokusai. A mostra, organizada a partir da Coleção Iuchi, permanece em cartaz até 17 de janeiro de 2027.

Entre as obras estão Sob a onda ao largo de Kanagawa, conhecida internacionalmente como A Grande Onda, e uma rara impressão azul de Dia claro com brisa do sul, composição conhecida como Fuji Vermelho. A página oficial da exposição confirma tanto o conjunto de 46 impressões quanto a apresentação inédita da série integral em território britânico. É importante distinguir esse fato da presença anterior de gravuras isoladas de Hokusai em museus do país.

Como 36 paisagens se transformaram em 46

Hokusai desenvolveu a série no início da década de 1830, quando já era um artista experiente. O projeto inicial compreendia 36 composições que observavam o Monte Fuji de localidades, distâncias, estações e situações diversas. O sucesso comercial das primeiras estampas levou o editor a acrescentar outras dez. A numeração original permaneceu no nome, mesmo depois da expansão.

Por isso, uma exposição que apresentasse somente 36 estampas não mostraria toda a sequência. Na Dulwich, o visitante pode comparar as imagens inicialmente concebidas com as dez que foram incorporadas posteriormente. A galeria confirma que a série foi elaborada entre 1830 e 1833, período associado às mudanças de cor, técnica e circulação das gravuras no Japão do período Edo.

O Fuji fornece o elemento comum, mas nem sempre ocupa a mesma posição. Algumas folhas o apresentam quase monumental; em outras, a montanha aparece reduzida ao fundo, observada através de atividades cotidianas, arquitetura, travessias ou fenômenos naturais. Ao percorrer as 46 composições, o público acompanha a capacidade de Hokusai de reorganizar a paisagem e a escala humana sem abandonar o mesmo assunto central.

O que A Grande Onda mostra de fato

Na imagem mais famosa da série, a forma curvada de uma onda ameaça três embarcações, enquanto o Monte Fuji aparece pequeno, ao longe, entre as massas de água. O catálogo do British Museum identifica as figuras nas embarcações como pescadores e registra a gravura como uma xilogravura colorida, produzida por volta de 1831.

Essa construção visual explica parte da força da imagem. A onda domina o primeiro plano e seus prolongamentos de espuma parecem prestes a alcançar os barcos. A montanha, apesar de ser o assunto da série, ocupa uma área menor e permanece estável no horizonte. A composição produz um contraste entre a ação imediata no mar e a permanência da paisagem distante.

Embora fotografias, reproduções digitais e produtos com a estampa sejam familiares ao público, ver uma impressão antiga envolve outra escala de observação. Linhas, gradações cromáticas e precisão do corte da madeira tornam-se parte da experiência. A obra apresentada na Dulwich pertence ao conjunto anunciado pela instituição e não deve ser confundida com os exemplares catalogados por outros museus, utilizados aqui apenas como referências documentais sobre a imagem.

O azul que ajudou a transformar a paisagem

Uma das características mais marcantes da série é o uso do azul da Prússia. O pigmento sintético, difundido no Japão no período, permitiu cores intensas e maior estabilidade em comparação com parte dos materiais anteriormente utilizados. Em um texto técnico sobre a xilogravura, o British Museum explica como a introdução do pigmento teve importância para as estampas da época e lembra que algumas das primeiras vistas de Fuji foram impressas em azul da Prússia e índigo.

A técnica exigia um processo coletivo, envolvendo o desenho do artista, o entalhe de blocos de madeira e a impressão de camadas de tinta sobre papel. Matrizes diferentes podiam ser necessárias para cada cor. O mesmo texto do museu detalha o uso da madeira de cerejeira e o trabalho de corte das linhas que definem as formas. Não se trata de aquarelas únicas feitas diretamente sobre o papel, mas de gravuras produzidas por impressão.

Essa informação também ajuda a explicar por que duas cópias de uma mesma composição podem apresentar pequenas diferenças de cor ou preservação. O catálogo de um museu e a exposição da Coleção Iuchi podem mostrar exemplares distintos de A Grande Onda, ainda que ambos derivem da composição de Hokusai. A identidade visual da estampa não elimina a história material de cada impressão.

A rara versão azul do Fuji Vermelho

Outro destaque confirmado pela Dulwich é uma rara impressão azul de Dia claro com brisa do sul, conhecida como Fuji Azul (Blue Fuji), variante da composição tradicionalmente chamada Fuji Vermelho (Red Fuji). Ao contrário de A Grande Onda, a montanha ocupa quase inteiramente a composição. A paisagem se organiza em torno de sua inclinação e do encontro com o céu.

O Metropolitan Museum of Art, em Nova York, conserva um exemplar dessa composição e registra sua datação aproximada entre 1830 e 1832. A descrição museológica associa o tom avermelhado à aparência que o Monte Fuji pode assumir sob determinadas condições de luz. Na impressão tradicional, esse tom avermelhado domina a encosta, sob um céu azul com nuvens brancas. Na variante azul, a montanha aparece em tons claros e azulados, sem o vermelho que dá nome à versão mais conhecida. A versão específica incluída na exposição de Londres é apresentada pela própria Dulwich como uma variante rara, até então não exibida no Reino Unido. É essa variante, e não a composição em geral, que sustenta a alegação de ineditismo.

Juntas, A Grande Onda e Fuji Vermelho demonstram a amplitude do projeto. Uma concentra a atenção no movimento do mar e na fragilidade dos barcos; a outra reduz elementos narrativos e entrega quase toda a folha à geometria da montanha. O diálogo entre elas ganha outro sentido quando as demais vistas estão reunidas no mesmo percurso.

Um museu de arquitetura histórica recebe a série japonesa

A exposição ocupa a Dulwich Picture Gallery, no sul de Londres. O edifício também merece atenção. Projetado por John Soane, o museu abriu ao público em 1817 e é considerado pela própria instituição um marco da arquitetura britânica de galerias de arte. Na história arquitetônica publicada pela Dulwich, o museu explica como o projeto foi concebido para abrigar uma coleção permanente, com espaços de iluminação natural e um mausoléu ligado a seus fundadores.

A mostra de Hokusai integra um calendário londrino que combina tradições artísticas distintas. O Begold Journal também acompanha, por exemplo, a intervenção de Renée Levi na fachada brutalista da Hayward Gallery, anunciada para permanecer até 15 de novembro. São apresentações independentes, em instituições diferentes, que permitem conhecer outras relações entre imagem, arquitetura e espaço expositivo na cidade.

Datas, ingressos e programação

Hokusai: Thirty-six Views of Mount Fuji from the Iuchi Collection pode ser visitada entre 20 de outubro de 2026 e 17 de janeiro de 2027. A Dulwich Picture Gallery informa ingressos adultos a partir de £ 21,50, na modalidade com doação, e entrada gratuita para membros. Os valores devem ser conferidos no momento da compra, pois podem variar por categoria.

Além da exposição, a instituição anunciou uma conversa com a curadoria em 3 de novembro, encontro sobre gravura japonesa em 12 de novembro e uma apresentação on-line com a curadora Jane Findlay em 1º de dezembro. A programação oficial reúne as atividades e indica as condições de reserva.

O endereço é Gallery Road, Dulwich, Londres, SE21 7AD. Para quem conhece Hokusai principalmente pela reprodução de A Grande Onda, a relevância desta temporada está em observar todas as 46 estampas em sequência. A montanha que parece secundária em uma imagem volta a ocupar o centro da seguinte, e o visitante pode perceber por que a série é muito maior do que sua gravura mais reproduzida.