Abaixo das ruas de Reims, no nordeste da França, antigas pedreiras de giz foram transformadas em galerias onde repousam garrafas de champanhe. No Domaine Vranken-Pommery, por exemplo, são 18 quilômetros de caves, enquanto a Maison Ruinart apresenta um labirinto de oito quilômetros que chega a aproximadamente 40 metros de profundidade. Acima desse patrimônio subterrâneo, a cidade guarda a catedral onde gerações de soberanos franceses receberam a coroação.
Essa combinação de história, arquitetura e vinho ganhou uma nova vitrine. Reims aparece em primeiro lugar na relação de dez destinos internacionais em alta para 2027 divulgada pela Booking.com em 14 de outubro de 2026. A seleção inclui também Monterey, nos Estados Unidos; Sendai, no Japão; e Goiânia, no Brasil. Para Reims, o resultado chama atenção porque a cidade costuma entrar em roteiros pela França como uma excursão curta a partir de Paris, embora tenha hotéis, gastronomia e atrações suficientes para uma estadia mais demorada.
A trajetória de Reims pode ser lida em dois níveis. Na superfície, a arquitetura guarda a história das coroações francesas. Sob parte da cidade, antigas escavações revelam como o champanhe passou a ocupar um lugar central na economia e na cultura da região.
Por que Reims entrou na lista de destinos para 2027
O levantamento de destinos da Booking.com partiu dos mil lugares mais reservados na plataforma entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026. A empresa comparou a evolução anual das reservas e realizou uma curadoria para assegurar diversidade geográfica no conjunto final de dez destinos. Reims abre essa seleção.
O resultado pertence a uma metodologia diferente da pesquisa de comportamento que fundamenta as tendências de viagens para 2027 já abordadas pelo Begold Journal. No estudo com viajantes, a empresa perguntou sobre preferências e intenções de viagem. Na relação de destinos, examinou dados de reservas. Em Reims, o interesse identificado encontra uma oferta turística que vai das visitas às maisons de champanhe à gastronomia reconhecida pelo Guia Michelin.
A localização também pesa na escolha. Reims fica no departamento de Marne, na região francesa de Grand Est, e pode ser alcançada em cerca de 46 minutos por trem direto a partir da estação Paris-Est, conforme os horários publicados pela SNCF Connect. Há também serviços que chegam à estação Champagne-Ardenne TGV, fora do centro, e exigem conexão para continuar até a estação central de Reims.
As caves de champanhe que atravessam o subsolo da cidade
A paisagem mais surpreendente de Reims está parcialmente fora de vista. O giz que compõe o subsolo local foi extraído ao longo de séculos para a construção de edifícios. Parte das cavidades passou a ser utilizada pelas maisons de champanhe, oferecendo condições favoráveis ao amadurecimento das garrafas. As galerias integram a história industrial, técnica e cultural da região.
Esse sistema recebeu reconhecimento internacional em 2015, quando a UNESCO inscreveu os Coteaux, Maisons et Caves de Champagne na Lista do Patrimônio Mundial. A designação é distribuída por diferentes áreas: os vinhedos históricos de Hautvillers, Aÿ e Mareuil-sur-Aÿ; a colina Saint-Nicaise, em Reims; e a Avenue de Champagne com o Fort Chabrol, em Épernay, outra cidade da região.
Na Maison Ruinart, fundada em 1729, o visitante pode percorrer antigas pedreiras conhecidas como crayères. A própria maison informa que seus espaços subterrâneos alcançam cerca de 40 metros de profundidade e totalizam aproximadamente oito quilômetros. No número 4 da Rue des Crayères, a visita reúne história da produção e degustações em experiências organizadas pela casa. O sítio também ganhou um pavilhão contemporâneo e jardins com obras de arte, compondo uma relação entre patrimônio, criação atual e paisagismo.
Outro percurso acontece no Domaine Vranken-Pommery, cuja rede subterrânea se estende por 18 quilômetros e compreende 60 antigas crayères. Uma escadaria de 116 degraus conduz às galerias, localizadas a aproximadamente 30 metros abaixo da superfície. No interior, o trajeto inclui instalações de arte contemporânea do programa Expérience Pommery. O acesso ao domínio fica na Place du Général Gouraud, em Reims.
A existência dessas visitas permite conhecer técnicas e histórias diferentes dentro da mesma cidade. A Veuve Clicquot também mantém um centro de visitação em Reims, no número 1 da Rue Albert Thomas, com programação ligada às caves e à história da maison. As ofertas variam conforme a data e o formato da visita.
Uma catedral gótica ligada à coroação dos reis franceses
No centro histórico, a Catedral de Notre-Dame de Reims constitui um segundo eixo monumental. A igreja é um dos grandes exemplares da arquitetura gótica francesa do século XIII, com fachadas esculpidas, vitrais e uma relação íntima com as cerimônias de coroação da monarquia. A construção atual preserva o papel cerimonial da cidade mesmo depois dos danos sofridos durante a Primeira Guerra Mundial e das restaurações realizadas posteriormente.
Desde 1991, a catedral integra outra inscrição da UNESCO, ao lado da antiga Abadia de Saint-Remi e do Palais du Tau. É um reconhecimento distinto daquele atribuído às paisagens, casas e caves de champanhe. Em um mesmo destino, portanto, convivem um patrimônio ligado à realeza e outro associado à produção e à circulação mundial de um vinho.
A Basílica de Saint-Remi mantém a relação com a memória de São Remígio e com os rituais religiosos das coroações. Já o Palais du Tau, junto à catedral, servia de residência ao arcebispo e estava associado à preparação e às celebrações dos reis. O edifício passa por uma transformação em museu dedicado aos sacres, as cerimônias de unção e coroação.
Essa transformação acrescenta uma perspectiva concreta à agenda cultural de 2027: o Centre des monuments nationaux informa que o Palais du Tau está fechado para obras e prevê sua reabertura em 2027, com um novo percurso museográfico. O projeto de restauração começou em 2022. Enquanto o interior permanece fechado, a instituição divulga a visita às torres da catedral como alternativa para conhecer a área monumental.
Reims também é uma cidade de arquitetura Art Déco
A história urbana de Reims não terminou na Idade Média. Durante a Primeira Guerra Mundial, a cidade foi profundamente destruída; a reconstrução das décadas seguintes introduziu edifícios, fachadas e equipamentos públicos associados ao repertório Art Déco e à arquitetura moderna. A marca desse período aparece nas ruas comerciais e também em construções concebidas para uso cotidiano.
Um exemplo é a Bibliothèque Carnegie, projetada por Max Sainsaulieu e concluída em 1928. O edifício reúne características do Art Déco, incluindo seu tratamento geométrico e decorativo. A Bibliothèque nationale de France registra a inauguração da biblioteca em 1928, viabilizada por financiamento da Carnegie Endowment for International Peace.
Outro endereço expressivo são as Halles du Boulingrin, mercado coberto concebido pelo arquiteto Émile Maigrot com participação do engenheiro Eugène Freyssinet. A estrutura de concreto armado possui uma cobertura abobadada que se eleva a aproximadamente 19,85 metros, com uma espessura de apenas sete centímetros na parte indicada pela documentação municipal. Restauradas e reabertas em 2012, as Halles voltaram a receber mercados e atividades públicas.
A cidade também oferece a Villa Demoiselle, em um registro arquitetônico diferente. Integrada às experiências da Maison Pommery, a residência é associada ao Art Nouveau, com mobiliário e elementos decorativos que aproximam a visita do universo de nomes como Louis Majorelle e René Lalique. É uma oportunidade de observar como a arquitetura, as artes decorativas e a história do champanhe se encontram em um mesmo endereço.
Hotéis históricos e gastronomia estrelada em Reims
A hospedagem permite descobrir outra escala da cidade, com tempo para alternar visitas subterrâneas, monumentos e restaurantes. Entre os hotéis destacados na comunicação da Booking.com está o Domaine Les Crayères, instalado no 64 Boulevard Henry-Vasnier, dentro de Reims. A propriedade ocupa uma antiga residência ligada à família Pommery e reúne acomodações em estilo clássico e jardins. A rede Relais & Châteaux descreve o domínio como situado em um parque de sete hectares.
No próprio hotel funciona o Le Parc Les Crayères, comandado pelo chef Christophe Moret e distinguido com duas estrelas Michelin na seleção francesa de 2026. O Le Parc é a mesa de alta gastronomia da propriedade; a Brasserie Le Jardin oferece uma proposta própria, em outro ambiente. A descrição do Guia Michelin destaca a cozinha de Moret e uma carta com extensa seleção de champanhes.
Reims dispõe ainda de outras mesas reconhecidas. A seleção Michelin de restaurantes com duas estrelas na cidade inclui Arbane e Racine, além do Le Parc. Em Tinqueux, município vizinho, o restaurante L’Assiette Champenoise, de Arnaud Lallement, detém três estrelas Michelin.
Quem prefere uma estadia diretamente diante da catedral encontra outra proposta no La Caserne Chanzy Hotel & Spa, Autograph Collection. O edifício funcionou como quartel de bombeiros e foi adaptado para hotel. A Marriott descreve a localização como situada em frente à catedral, uma posição muito diferente da área ajardinada ocupada pelo Domaine Les Crayères.
Como organizar uma viagem a Reims em 2027
A chegada de trem a partir de Paris facilita a inclusão de Reims num itinerário pela França. Uma estadia de duas ou três noites permite dividir os programas por interesse: a catedral e o entorno histórico em um dia; uma ou duas maisons de champanhe em outro; e tempo para observar o Art Déco, o mercado do Boulingrin e a gastronomia sem depender de um deslocamento imediato de volta à capital.
Para visitar as caves, a programação da viagem pode ser organizada diretamente com as maisons. A Ruinart, o Domaine Pommery e a Veuve Clicquot oferecem formatos próprios, alguns guiados e outros autoguiados, com experiências que podem envolver degustação, arte ou gastronomia. O calendário de funcionamento e as modalidades reserváveis dependem do período escolhido.
A partir de Reims, o roteiro pode seguir até Épernay, outro polo vinícola da região, para conhecer a Avenue de Champagne. Os vinhedos históricos de Hautvillers e Aÿ ampliam o percurso pelas paisagens de Champagne, em localidades próximas à cidade de Reims.
Há uma razão para a presença de Reims na seleção de 2027 despertar interesse mesmo entre pessoas que já conhecem Paris. A viagem reúne uma catedral ligada à monarquia francesa, galerias de giz incorporadas à história do champanhe, a arquitetura da reconstrução do século XX e hotéis que sustentam uma programação gastronômica própria. O resultado da Booking.com chama atenção para esse conjunto, mas são os endereços concretos, da Rue des Crayères ao Boulevard Henry-Vasnier, que explicam por que Reims pode merecer mais do que uma visita de passagem.