Antes de o drama começar, uma moeda podia mudar a noite inteira no National Theatre de Londres. Cate Blanchett e Nina Hoss entravam em cena sem saber qual das duas interpretaria Electra, personagem da tragédia grega, e qual assumiria o papel de sua mãe, Clitemnestra. A decisão dependia de um cara ou coroa realizado diante da plateia. O resultado também determinava as personagens das atrizes na segunda parte do espetáculo, inspirada no filme Persona, de Ingmar Bergman.
A experiência voltou ao noticiário em 23 de outubro de 2026, quando Blanchett falou sobre Electra/Persona no programa britânico The Graham Norton Show. Em declaração divulgada pela produtora So Television, ela explicou que nem as atrizes nem o público conheciam previamente a distribuição daquela noite. A preparação exigira que as duas aprendessem o espetáculo inteiro nas duas possibilidades.
A entrevista relembrou uma montagem cuja temporada havia terminado em 10 de outubro. O espetáculo ficou em cartaz de 19 de agosto a 10 de outubro de 2026 no Lyttelton Theatre, uma das salas do National Theatre, às margens do Tâmisa.
Uma moeda e duas combinações de personagens
O sorteio não era um artifício de divulgação. Integrava a própria apresentação. Críticas publicadas durante a temporada descrevem Blanchett e Hoss solicitando a um espectador que lançasse a moeda antes da ação dramática. Apenas então eram definidos os pares de personagens que cada uma interpretaria.
Havia duas combinações possíveis. Quem assumisse Electra, na primeira parte, interpretaria Elisabeth, na segunda. A outra atriz ficaria com Clitemnestra e, na segunda parte da montagem, com Alma. Não se tratava de trocar papéis independentemente entre as duas histórias. A correspondência estabelecida pela encenação ligava a tragédia antiga ao drama psicológico de Bergman.
Isso criava um desafio pouco usual para duas intérpretes de longa experiência. Era necessário memorizar falas, movimentos, tempos de cena e relações emocionais de personagens colocadas em lados opostos do conflito. E executá-los sem poder se apoiar em uma distribuição definitiva para toda a temporada.
Para o público, havia uma consequência igualmente concreta: duas pessoas que assistissem ao espetáculo em noites diferentes poderiam encontrar Blanchett em papéis opostos. Uma veria sua Electra; outra, sua Clitemnestra. O texto e a estrutura permaneciam, mas a relação entre as intérpretes mudava de posição.
Por que juntar uma tragédia de Sófocles a um filme de Bergman?
Electra/Persona foi escrita e dirigida por Benedict Andrews, a partir de Electra, de Sófocles, e do filme Persona, lançado pelo cineasta sueco Ingmar Bergman em 1966. São obras separadas por séculos e por linguagens muito diferentes, mas ambas investigam conflitos de identidade, vínculos familiares e as situações em que a palavra deixa de ser suficiente.
Na tragédia grega, Electra vive consumida pela morte do pai, Agamêmnon, e pela hostilidade em relação à mãe, Clitemnestra. A disputa envolve luto, justiça e desejo de vingança. No filme de Bergman, a atriz Elisabeth deixa de falar; Alma, a enfermeira encarregada de acompanhá-la, passa a ocupar grande parte do espaço verbal entre as duas. Silêncio e fala se transformam em elementos de uma relação de poder instável.
Há ainda um elo dramatúrgico muito preciso. Em Persona, Elisabeth emudece durante uma representação de Electra. Andrews partiu dessa ligação existente no próprio filme para aproximar as obras, em vez de apresentá-las como dois títulos independentes. A montagem fazia a passagem de um universo para o outro e colocava em evidência a ideia de interpretar alguém, dentro e fora do palco.
A troca de papéis dialogava diretamente com essa proposta. Ao assistir às mesmas atrizes alternando personagens, a plateia tinha diante de si uma demonstração da distância entre a pessoa que atua e a figura que ela encarna. A moeda tornava essa operação visível antes da primeira fala.
Uma montagem com cinema dentro do palco
A produção reuniu recursos teatrais e audiovisuais. A cenografia foi assinada por Magda Willi, com figurinos de Merle Hensel, iluminação de Jon Clark e vídeo de Ash J Woodward. A música original era de Hildur Guðnadóttir, compositora islandesa que trabalhou com a montagem dirigida por Andrews.
Críticas à temporada registraram o uso de câmeras e de projeções de rostos em grande escala, aproximando o que acontecia diante da plateia da linguagem de close-ups que marca o cinema de Bergman. A presença simultânea do corpo da atriz e de sua imagem projetada ampliava o tema da duplicidade já anunciado pelo título.
O elenco também incluía Ella Lily Hyland e Patrick Robinson. Blanchett e Hoss, entretanto, carregavam o principal dispositivo de alternância. A dupla já havia contracenado no cinema em Tár, filme de 2022, mas o formato de Electra/Persona exigia outro tipo de parceria: ensaiar as duas posições da mesma cena e estar pronta para qualquer uma delas diante do público.
O que o National Theatre registrou sobre a temporada
O arquivo do National Theatre identifica Electra/Persona como a primeira produção da peça, apresentada no Lyttelton Theatre. O cadastro registra 57 apresentações e noite de imprensa em 1º de setembro.
Esses dados ajudam a dimensionar a exigência do projeto. O sorteio era realizado ao longo de uma temporada regular, não como uma improvisação isolada em uma única sessão. A possibilidade de inversão precisava permanecer viável diante de espectadores reais, em noites sucessivas.
Essa é também a razão pela qual a fala de Blanchett, exibida quase duas semanas depois do encerramento, ganhou interesse próprio. Ela descreveu um método de trabalho que normalmente permanece fora da visão de quem assiste ao teatro: conhecer as falas e a lógica emocional de duas personagens antes de descobrir qual delas será vivida naquela noite.
O teatro que não se repete exatamente
É comum que montagens de repertório recebam novos intérpretes ao longo dos anos. Em Electra/Persona, a variação acontecia dentro da mesma temporada, com duas atrizes que se prepararam para ocupar os dois lados de uma relação dramática.
O gesto mais revelador não estava na presença de uma estrela de cinema em Londres nem na combinação incomum de Sófocles com Bergman. Estava naquele início de espetáculo: alguém na plateia lançava uma moeda e, durante as horas seguintes, Blanchett e Hoss davam corpo à consequência de um resultado conhecido apenas naquele instante.