Em 2 de setembro de 1996, um visitante podia entrar em um edifício às margens do Danúbio, na cidade austríaca de Linz, colocar óculos estereoscópicos e caminhar dentro de um ambiente digital projetado ao seu redor.
Era a abertura do Ars Electronica Center, instituição que Linz batizou de “Museum of the Future”, o Museu do Futuro. A própria Ars Electronica descreve o contexto daquele ano sem rodeios: a internet apenas começava a entrar no cotidiano, não havia Wi-Fi nem computação em nuvem, não existiam smartphones, redes sociais, streaming ou chatbots, e ninguém tinha pesquisado nada no Google.
Os marcos técnicos ajudam a medir esse intervalo com precisão. Quando o Ars Electronica Center abriu, em setembro de 1996, o padrão IEEE 802.11, base do Wi-Fi comercial, ainda não havia sido publicado, o que ocorreu no ano seguinte, conforme o próprio IEEE. O Google era então um projeto acadêmico da Universidade Stanford chamado BackRub, nome que Larry Page e Sergey Brin adotaram por causa do método de análise dos links que apontavam para cada página, registrado em relatos sobre a origem da empresa. A Google Inc. só seria constituída em 1998.
Trinta anos depois, o nome segue funcionando. Em 2026, o Ars Electronica Center completa três décadas discutindo inteligência artificial, robótica e sistemas autônomos. O aniversário cai em 2 de setembro, e a celebração pública está marcada para a noite de 8 de setembro, na véspera do festival.
O Ars Electronica Center nasceu de um festival criado em 1979
O edifício foi a terceira etapa de um projeto mais antigo. Conforme o comunicado oficial do ano temático, a Ars Electronica reunia até 1996 apenas o festival, iniciado em 1979, e a competição de CyberArts, criada em 1987, que deu origem ao Prix Ars Electronica.
A mudança estrutural veio com a inauguração do Center e a criação do Ars Electronica Futurelab, ambos em 1996. Foi o momento em que a instituição passou a ter sede aberta o ano inteiro e um laboratório permanente de pesquisa, transformando-se no que a organização chama de ecossistema entre arte, tecnologia e sociedade.
A proposta do museu também alterou a relação com o público. Em vez de vitrines e textos explicativos, o visitante operava as máquinas. Isso significava voar por mundos virtuais, comandar robôs à distância e discutir os efeitos sociais de tecnologias que ainda não tinham chegado à maioria das casas.
Em 1996, o museu abriu ao público a primeira CAVE acessível do mundo
A atração central do Ars Electronica Center recém-inaugurado era a CAVE, sigla de Cave Automatic Virtual Environment, um ambiente em que imagens tridimensionais eram projetadas nas paredes e no piso. Com visualização estereoscópica, o visitante tinha a sensação de estar dentro do universo digital.
A tecnologia havia sido desenvolvida no Electronic Visualization Laboratory da University of Illinois Chicago, em trabalho que envolveu o artista e pesquisador Dan Sandin e o pioneiro da computação gráfica Thomas A. DeFanti. Linz não inventou o sistema, e o comunicado da Ars Electronica registra outro ponto: a instalação austríaca foi a primeira CAVE publicamente acessível do mundo.
A distância histórica é considerável. O museu oferecia realidade virtual imersiva ao público duas décadas antes de o primeiro Oculus Rift chegar ao mercado de consumo, em 2016, e antes de os headsets de realidade mista virarem produto das grandes empresas de tecnologia. A instituição revisitou essa trajetória ao preparar a programação dos 30 anos.
Um jardim real cultivado pela internet e um voo sem avião
Entre os projetos que marcaram o primeiro período, o comunicado da Ars Electronica lista o Telegarden, descrito como obra de arte em rede e telerrobótica. Pessoas conectadas à internet observavam e cuidavam remotamente de um jardim real, orientando um braço robótico industrial instalado no centro do canteiro. O projeto foi criado sob a direção de Ken Goldberg.
Hoje, acionar uma fechadura, uma câmera ou um carro pelo celular é rotina. Nos anos 1990, permitir que desconhecidos espalhados pelo mundo movimentassem um robô para cuidar coletivamente de plantas era uma forma concreta de discutir o que uma comunidade conectada poderia significar.
Outra instalação daquele período foi o Humphrey, desenvolvido pelo Futurelab e apresentado pela Ars Electronica como um simulador de voo. O histórico da instituição registra que o visitante era preso a uma estrutura construída especialmente para o equipamento e atravessava ambientes tridimensionais suspenso no ar. A lista oficial de projetos daquele ciclo inclui ainda o Gullivers World, instalação de realidade mista.
O contexto tecnológico explica o peso dessas experiências. As redes sem fio domésticas só ganhariam escala comercial a partir de 1999, e a maior parte do público que hoje comanda objetos pelo celular sequer tinha acesso residencial à internet naquele momento.
A fachada tem 5.100 m² de vidro e 38.500 LEDs
O edifício que hoje aparece nas fotografias de Linz não corresponde à estrutura de 1996. A ampliação, com projeto do escritório vienense Treusch architecture, acrescentou um novo volume junto à construção original e integrou os dois corpos por uma pele de vidro retroiluminada.
Segundo o Ars Electronica Futurelab, desde janeiro de 2009 são 38.500 LEDs instalados em uma casca de vidro de aproximadamente 5.100 m². A superfície inteira funciona como um display controlável, e o prédio passou a operar como interface pública de grandes dimensões diante do rio.
Na outra margem está o Lentos Kunstmuseum, que também tem fachada iluminada. As duas instituições formam a paisagem noturna do centro de Linz, e em 2026 o Lentos recebe a exposição com os premiados do Prix Ars Electronica.
Da CAVE ao Deep Space 8K
A reforma encerrou a história da CAVE original. Em seu lugar surgiu o Deep Space, desenvolvido pelo Futurelab em 2009 e, segundo o comunicado da instituição, exportado desde então para outros países. Hoje o ambiente é apresentado como Deep Space 8K.
A ficha técnica divulgada pela Ars Electronica descreve uma projeção de parede de 16 por 9 metros e uma projeção de piso das mesmas dimensões, com resolução de 4K ou 8K, oito projetores 4K a 120 Hz, sistema de estéreo ativo com óculos e rastreamento a laser para interação do público. O conjunto passa de 50 milhões de pixels.
A escala permite usos que vão além do entretenimento. Dados viram ambientes percorríveis, imagens gigapixel revelam detalhes de obras de arte e modelos de nuvem de pontos exibem sítios históricos capturados por escaneamento tridimensional a laser.
Em 2026, uma das maiores produções previstas para o espaço é Unbreakable Ukraine, realizada com a produtora italiana Saravá, conforme a lista de destaques do festival.
Trinta anos de projetos com Honda, CERN, Intel, MIT e OpenAI
A linha do tempo divulgada pela instituição ajuda a medir o alcance do endereço. Em 2009, o androide Geminoid, de Hiroshi Ishiguro, foi apresentado em Linz. Em 2010 chegou o robô humanoide ASIMO, da Honda. Em 2011, o museu montou uma exposição em parceria com o CERN.
Em 2012, um enxame de 50 drones luminosos iluminou o céu sobre o Donaupark durante a Klangwolke, experimento que em novembro de 2015 foi desenvolvido junto com a Intel até se tornar, segundo a Ars Electronica, o maior enxame autônomo de drones do mundo. Ainda em 2015, o conceito F015 Luxury in Motion, da Daimler, rodou pela primeira vez em solo europeu na cidade.
Em 2016, o Center apresentou exposição com o Tangible Media Group do MIT. Em 2019, exibiu a instalação GPT-2: Sprachfelder, desenvolvida com a OpenAI, sete anos antes de o debate sobre modelos de linguagem se tornar corriqueiro.
Em 2026, a discussão chegou à inteligência artificial
O 30º aniversário virou um novo ciclo de exposições. O projeto central é Hello Worlds!, plataforma concebida pela Advanced R&D and Engineering Company da Toyota Motor Corporation com o Ars Electronica Futurelab, dentro da pesquisa Future Humanity. A abertura acontece no Center em 9 de setembro de 2026 e a proposta é perguntar como a definição de ser humano será negociada na era da inteligência artificial.
O deslocamento em relação a 1996 é claro. As perguntas de então tratavam de internet, ambientes virtuais e comunicação em rede. As de agora tratam de agentes autônomos, robótica e do que resta de exclusivamente humano.
O Futurelab também completa 30 anos em 2026, e a Futurelab Night de 12 de setembro transforma vários pavimentos do museu em espaço de performances e demonstrações.
A festa dos 30 anos acontece em 8 de setembro
Embora o museu tenha aberto em 2 de setembro de 1996, a celebração principal será na noite de 8 de setembro de 2026, a partir das 19h30, com entrada gratuita.
A programação anunciada começa com a abertura de duas exposições, Hello Worlds! e a mostra Ars Electronica Solutions, dedicada aos bastidores dos projetos. Depois vêm os discursos no foyer, o brinde, performances, DJ sets e robôs circulando entre os visitantes. O roteiro oficial cita ainda um concerto de piano com Maki Namekawa, Dennis Russell Davies e Cori O’Lan, uma performance sonora de Moritz Simon Geist e um bolo de aniversário.
A data funciona como prelúdio do Ars Electronica Festival 2026, realizado entre 9 e 13 de setembro. O tema do ano é “Future Begins”, e o festival adota o subtítulo “Negotiating Humanity”.
O festival ocupa o centro de Linz
Depois de anos na POSTCITY, o festival abandona a sede única e distribui a programação por três grandes polos no centro da cidade: o OK QUARTER, o MED CAMPUS e o chamado DANUBE TRIANGLE, que inclui o Ars Electronica Center.
A abertura oficial é em 9 de setembro, às 19h, dentro e diante da Catedral de Santa Maria, com entrada franca e apresentação de Markus Poschner e da Bruckner Orchester Linz. Igrejas, escolas, hospitais e o campus da Universidade de Artes de Linz também entram no circuito de exposições.
A escala da operação apoia-se em uma estrutura permanente. Segundo a instituição, mais de 200 pessoas de diferentes países e disciplinas trabalham hoje na Ars Electronica.
Trinta anos tentando tornar o futuro visível
Parte das tecnologias que pareciam futuristas em 1996 virou trivial. Conversar por vídeo com alguém do outro lado do mundo, controlar dispositivos à distância e viver conectado a uma rede permanente já não causam espanto.
Outras seguem em desenvolvimento. A realidade virtual ainda procura formas de integração ao cotidiano, os robôs humanoides começam a sair dos laboratórios e a inteligência artificial generativa alterou em poucos anos a relação entre pessoas e máquinas, com questões abertas sobre autoria, trabalho e privacidade.
A função do Ars Electronica Center foi criar um lugar físico onde tecnologias ainda estranhas pudessem ser experimentadas antes de virarem banais. Em setembro de 1996, isso significava colocar alguém dentro de uma CAVE ou deixar um desconhecido cultivar um jardim pela internet.
Em setembro de 2026, significa colocar inteligência artificial, robótica e a própria definição de humanidade no centro da sala. O endereço continua o mesmo, diante do Danúbio, em Linz.
Foto: divulgação/Ars Electronica