Casas caiadas acompanham a inclinação da montanha, ruas estreitas sobem e descem entre fachadas brancas e, no intervalo entre uma parede e outra, o Mediterrâneo aparece no horizonte. Mijas Pueblo, na província de Málaga, concentra em poucos quarteirões os elementos que identificam os pueblos blancos da Andaluzia, e a explicação para essa aparência está documentada em registros oficiais do município e do Estado espanhol.

O povoado ocupa a ladeira da Sierra de Mijas a cerca de 428 metros sobre o nível do mar, cota que a Diputación de Málaga associa à posição privilegiada do núcleo sobre a Costa del Sol. É dessa altura que as vistas se abrem entre as construções, sem que o povoado deixe de estar encostado na serra.

A topografia também condicionou o desenho urbano. O departamento de Patrimônio Histórico de Mijas descreve o povoado sobre uma plataforma rochosa cercada a leste, sul e oeste por fortes desníveis, condição que garantia defesa natural e concentrava a fortificação no lado norte. As ruas estreitas e as casas de pouca altura, apertadas no núcleo urbano, são consequência direta desse terreno.

Um traçado de origem árabe no casco histórico

O portal oficial de turismo do município atribui ao casco histórico um traçado de origem árabe, formado por ruas encaladas que funcionam como mirante sobre o Mediterrâneo. No mesmo perímetro estão a antiga muralha, a Igreja Paroquial da Imaculada Conceição, o santuário da Virgen de la Peña, do século XVII, e a praça de touros de planta oval.

A distinção importa: o traçado tem origem árabe, mas Mijas não nasceu sob domínio muçulmano. O levantamento histórico municipal documenta ocupação humana desde o Paleolítico Superior, vestígios da Idade do Bronze e, a partir de 900 a.C., a influência fenícia na costa de Málaga. Na própria Muralha de Mijas Pueblo foram localizadas evidências de um santuário fenício-púnico, com duas placas oculadas conhecidas na bibliografia arqueológica como ojos de Astarté.

A etapa romana deixou marcas igualmente registradas, entre villas rurais, cerâmica terra sigillata, moedas datadas entre os séculos I a.C. e IV d.C. e a exploração dos mármores da Sierra de Mijas. Com a desagregação da administração romana, a população teria migrado das terras planas próximas ao mar para cotas mais altas e defensáveis, entre elas a atual Mijas.

No início do século VIII, com o desembarque de 711 em Algeciras, as terras da atual Mijas passaram à órbita islâmica. O período se prolongou por mais de 700 anos, e as fontes daquela etapa citam a localidade como Mixas, que aparece entre as primeiras povoações a se unirem à revolta de Umar Ibn Hafsun e mais tarde é mencionada como uma das fortalezas da região.

A fortaleza, o assalto de 1485 e a conquista de 1487

A fortaleza de Mijas protegia a população, sem ser um assentamento militar. Um fragmento da Crónica de los Reyes Católicos, de Diego de Valera, reproduzido pelo arquivo municipal, relata que em setembro de 1485 os Reis Católicos enviaram o escalador Juan Ortega de Prado para estudar a estrutura e planejar um assalto. A tentativa fracassou, com mortos e feridos entre os atacantes, e os defensores mantiveram a fortificação.

A conquista cristã ocorreu dois anos depois, em 1487, e a partir dali a fortaleza entrou em processo irreversível de abandono. Restam hoje vestígios de uma torre reconstruída e muros de perímetro, boa parte deles refeitos em época moderna, com função de proteção contra quedas nos tajos que cercam o povoado.

Conjunto histórico-artístico desde 1969

A configuração urbana recebeu proteção estatal há mais de meio século. O Decreto 1231/1969, de 6 de junho, declarou conjunto histórico-artístico a vila de Mijas, com publicação no Boletín Oficial del Estado número 150, de 24 de junho de 1969.

O texto do decreto, reproduzido pelo Ayuntamiento de Mijas, justifica a medida pelas características do povoado andaluz e por seu emplazamento, citando a aglomeração de ruas e praças, a simplicidade dos edifícios de acentuada brancura, a montanha coberta de pinheiros às costas e a extensão de mar e costa à frente, que alcança visualmente os montes da África e o Estreito de Gibraltar em dias claros.

A administração municipal acrescenta o contexto da decisão. Mijas foi o segundo município malaguenho a receber a declaração, depois de Ronda, em 1966, e o décimo sexto da Andaluzia, sendo o primeiro da comunidade a obter a qualificação com base em critérios de tipismo e caráter pitoresco. A declaração fixou uma zona histórico-artística de aproximadamente 28 hectares e uma zona de respeito que, na prática, nunca chegou a ser protegida.

O expediente teve por base um informe técnico elaborado em 1966 pelo arquiteto José González Edo, então presidente da Comissão Provincial de Monumentos de Málaga. O documento defendia a manutenção das ruas estreitas e das casas de pouca altura e apontava como principal risco a construção massiva em altura, resultado da especulação do solo, a ser contida por ordenanças de volume e de altura. O próprio Ayuntamiento reconhece que, com o passar dos anos, foram permitidas modificações no tecido urbano distantes do que estabelecia o decreto.

Mijas Pueblo não é todo o município de Mijas

A diferença é relevante para quem associa o nome Mijas apenas às ruas brancas. O município se divide em três núcleos urbanos: Mijas Pueblo, na serra; Las Lagunas, apontado pelo portal de turismo como centro industrial e comercial do município; e a área litorânea de La Cala de Mijas, com praias que reúnem nove bandeiras Q de Qualidade Turística e três Bandeiras Azuis.

A poucos quilômetros do casco histórico, portanto, a geografia muda e o município alcança o mar. Do alto da vila, as duas paisagens permanecem conectadas visualmente, e é Mijas Pueblo que concentra o núcleo histórico protegido desde 1969, com o traçado que a montanha ajudou a desenhar.