São 33 mil metros quadrados de área construída no centro de um parque de 450 mil metros quadrados, com lago, bosques e jardins concebidos por Roberto Burle Marx. Dentro do edifício, salões monumentais, colunas e vitrais. Ao lado, as águas minerais que fizeram do Barreiro um destino de tratamentos termais décadas antes de o mercado hoteleiro adotar o vocabulário do bem-estar. É esse conjunto, em Araxá, no Alto Paranaíba mineiro, que sustenta o Grande Hotel Termas de Araxá.
Inaugurado em 1944 e administrado pelo Grupo Tauá, o hotel foi confirmado como participante oficial do Regenera Luxury Awards 2026, premiação dedicada à hospitalidade regenerativa que anuncia os vencedores da primeira edição global em setembro.
A propriedade integra um bem tombado. O Complexo Hidrotermal e Hoteleiro do Barreiro foi protegido pela Constituição do Estado de Minas Gerais de 1989, registra o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, com base no parágrafo 2º do artigo 84 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Grande Hotel Termas de Araxá ocupa 33 mil m² dentro de um parque de 450 mil m²
Os números delimitam a escala do empreendimento. A revista Encontro registrou, na reabertura de 2022, uma área total de 450 mil metros quadrados, com 33 mil metros quadrados de construção no hotel e outros 16 mil metros quadrados ocupados pelas termas. A suíte presidencial tem 200 metros quadrados.
Os dados oficiais confirmam a dimensão. A Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, a Codemge, proprietária do imóvel, informou em 2025 que o complexo tem 33.300 metros quadrados e 283 espaços de hospedagem, além de manter a cessão ao Grupo Tauá até janeiro de 2029. A parceria entre a estatal e o grupo hoteleiro começou em 2010.
O parque não funciona como simples área verde no entorno do edifício. O complexo se organiza ao redor de um lago artificial, no centro da cratera que forma a bacia do Barreiro, cuja formação geológica ligada a fenômenos vulcânicos deu origem às águas e aos minérios da região. No mesmo perímetro estão a Igreja de Nossa Senhora das Graças, a antiga Casa de Força, a Capela de Jesus Crucificado e o Lago Norte, em cuja margem o arquiteto do conjunto ergueu a própria residência.
Os jardins foram concebidos por Roberto Burle Marx em 1944
O documento patrimonial do IEPHA-MG atribui os parques e jardins do complexo, datados de 1944, à concepção de Roberto Burle Marx. A Fonte Andrade Júnior, de 1947, é obra de Francisco Bologna, e o projeto arquitetônico das Termas, de 1944, e do Grande Hotel, de 1945, foi coordenado por Luiz Signorelli.
A informação desloca a paisagem para o centro da história arquitetônica do hotel. Burle Marx reformulou a relação entre vegetação, desenho e arquitetura no paisagismo moderno brasileiro, e no Barreiro seu trabalho opera em escala territorial, articulado ao edifício monumental, ao lago e à vegetação ao redor. Parte relevante da experiência do hóspede, portanto, está fora do prédio.
A arquitetura segue o chamado estilo missões
Descrições contemporâneas classificam o Grande Hotel como neoclássico, art déco ou uma combinação dos dois. A documentação patrimonial é mais específica: Signorelli adotou o chamado estilo missões, corrente então em ampla disseminação no Brasil, dentro de um movimento de pan-americanização cultural que abandonava modelos europeus em favor de influências ecléticas originadas nos Estados Unidos.
A técnica acompanha essa escolha. As edificações do Grande Hotel e das Termas são inteiramente estruturadas em concreto armado, com pavilhões distribuídos ao longo de extensos eixos longitudinais e circulação articulada em dois pavimentos. A cronologia publicada pelo próprio hotel acrescenta que Signorelli projetou o edifício inspirado nas casas de banho romanas, em obra iniciada em 1938 e concluída em 1942.
As águas vieram antes do hotel
A ocupação turística do Barreiro é anterior ao empreendimento. As águas sulfurosas e historicamente classificadas como radioativas atraíam visitantes em busca de tratamento desde o século XIX, e antes do Grande Hotel o Hotel Rádio recebia hóspedes na região, entre eles Santos Dumont, cujas ruínas permanecem nos arredores.
As termas foram inauguradas em 1942 e o hotel ficou pronto dois anos depois. A abertura de 1944 contou com a presença do então presidente Getúlio Vargas, com descerramento de placa no Lago das Termas, e o edifício reuniu cassino, bailes e a elite política do período.
Essa fase durou pouco. O Decreto-Lei nº 9.215, de 30 de abril de 1946, proibiu a prática e a exploração de jogos de azar em todo o território nacional, encerrando a operação dos cassinos brasileiros. O hotel manteve as termas e passou a depender de outros motivos para atrair hóspedes, entre eles o esporte: a seleção brasileira se concentrou em Araxá em 1958, antes da Copa do Mundo da Suécia.
O hotel fechou em 1994 e voltou a operar em 2001
A trajetória não foi contínua. O Grande Hotel ficou fechado entre 1994 e 2001, conforme o histórico apurado junto à Codemge, e retomou a operação antes de a administração passar ao Grupo Tauá, em 2010.
A reformulação mais recente é de 2022. Após um estudo sobre a vocação da propriedade encomendado ao empresário Facundo Guerra, o grupo investiu 10 milhões de reais na reestruturação e reabriu o hotel em 1º de dezembro daquele ano, com reposicionamento voltado ao bem-estar e ao resgate da linguagem original do conjunto.
O arranjo cria uma situação particular de gestão. O imóvel segue no patrimônio de uma estatal mineira, sob contrato com prazo definido, enquanto precisa operar comercialmente dentro de um bem tombado, com as restrições de intervenção que a proteção impõe.
O que significa disputar o Regenera Luxury Awards 2026
A premiação é recente. Segundo o calendário oficial do programa, o Regenera Luxury Awards foi lançado na ITB Berlin em março de 2026, com inscrições abertas em 1º de abril e encerradas em 30 de junho, período de avaliação entre julho e agosto e anúncio dos vencedores globais em setembro.
A metodologia é o principal diferencial anunciado. A organização afirma não utilizar júri nem votação subjetiva, aplicando uma avaliação de base métrica que gera relatório de impacto com indicadores e KPIs, além de um plano de ação recomendado. A participação como indicado oficial exige uma taxa administrativa de 100 dólares.
São dez categorias distribuídas em quatro grupos: liderança regenerativa, governança, meio ambiente e o conjunto que reúne bem-estar, cultura e experiência do hóspede. Entre os focos de avaliação aparecem gestão da água, circularidade, biodiversidade e regeneração da paisagem, rastreabilidade da cadeia de fornecedores, criação de valor local, patrimônio cultural e parceria com a comunidade, desenvolvimento de funcionários e experiências de bem-estar.
Há uma distinção necessária. Participar do prêmio não equivale a possuir certificação regenerativa. A própria organização descreve a etapa como o primeiro passo de um percurso que segue para pré-certificação e certificação, e apresenta a inscrição como entrada de baixa barreira em um processo de longo prazo.
A propriedade está listada na plataforma da Regenera
O Grande Hotel e Termas de Araxá aparece publicamente na Regenera Luxury Stays, plataforma oficial da organização, identificado em Barreiro, Brasil, entre as 168 propriedades do diretório. A Regenera também anunciou a propriedade como indicada oficial da edição 2026 em seus canais.
A imprensa especializada, a partir de informação do Grupo Tauá, tratou o empreendimento como o único hotel brasileiro indicado ao prêmio. A afirmação depende da fonte primária: o site da premiação não publica lista completa de inscritos por país, o que impede verificação independente da exclusividade.
O Grupo Tauá é Empresa B certificada desde janeiro de 2026
Existe um reconhecimento socioambiental verificável de forma independente. O diretório oficial da B Lab registra o Grupo Tauá de Hotéis e Resorts como Empresa B certificada em janeiro de 2026, com 92,9 pontos na avaliação de impacto, acima dos 80 exigidos para a certificação. A empresa está listada no setor de hospedagem, em Minas Gerais.
O dado não transfere automaticamente ao hotel a qualificação de prática regenerativa, mas oferece referência externa para parte da estratégia socioambiental da companhia que administra a propriedade. O Grande Hotel Termas de Araxá integra o grupo certificado.
Em 1944, o endereço representava uma ideia específica de luxo, feita de cassino, bailes, presença política e termas frequentadas pela elite brasileira. Em 2026, a mesma propriedade se apresenta com outro vocabulário, que inclui preservação de patrimônio, saúde, paisagem e impacto ambiental.
As paredes de concreto armado continuam, os jardins de Burle Marx continuam e as águas que motivaram a criação da estância seguem no centro do Barreiro. O resultado da premiação sai em setembro, e o patrimônio que sustenta a candidatura já atravessa oito décadas.