Ferragamo é um sobrenome imediatamente associado à moda italiana, aos sapatos que fizeram a reputação de Salvatore Ferragamo e a uma história profundamente ligada a Florença. Há, porém, outro capítulo menos conhecido dessa família. Ele não está nas passarelas, mas em alguns dos endereços mais marcantes de Florença, Roma e Milão.
Os hotéis da família Ferragamo pertencem ao universo da Lungarno Collection, empresa italiana de hospitalidade nascida em Florença a partir da visão da família. A companhia é presidida por Leonardo Ferragamo e mantém identidade própria, distinta da casa de moda Salvatore Ferragamo. A apresentação institucional da Lungarno Collection descreve a empresa como pertencente à família Ferragamo e registra sua criação em 1995.
O interesse está no que aconteceu a partir daí. Em vez de multiplicar hotéis de luxo convencionais, a Lungarno passou a ocupar pontos ligados à vida das cidades: junto ao Ponte Vecchio, sobre a Via Condotti e dentro de um antigo seminário arquiepiscopal que atravessou quase cinco séculos de história em Milão.
O outro universo da família Ferragamo
A relação da família Ferragamo com a hospitalidade tem origem própria, separada da marca de moda. A Lungarno Collection nasceu em Florença a partir da visão da família e levou depois sua proposta de hospitalidade para Roma e Milão. Leonardo Ferragamo ocupa a presidência da empresa.
O que conecta os dois universos é uma herança familiar relacionada a design, artesanato, atenção aos detalhes e à ligação dos Ferragamo com Florença, e não a transformação de hotéis em vitrines da grife. A cidade permanece o centro dessa história. No portfólio atual, Florença concentra Hotel Lungarno, Portrait Firenze e Gallery Hotel Art, além de endereços residenciais como Lungarno Apartments e Palazzo Ottaviani. Roma recebe o Portrait Roma e Milão, o Portrait Milano.
Os hotéis não seguem a mesma estética. O elemento recorrente aparece em outro lugar: a relação entre a propriedade e a cidade que existe do lado de fora.
Hotel Lungarno: mais de 400 obras às margens do Arno
Em Florença, essa relação aparece com clareza no Hotel Lungarno. O hotel ocupa o Borgo San Jacopo, junto ao Arno e ao Ponte Vecchio, e reúne atualmente 66 quartos e suítes. A localização já bastaria para colocá-lo em posição incomum dentro da hotelaria florentina. O que acontece em seu interior acrescenta outra dimensão à propriedade.
Mais de 400 obras do século XX estão distribuídas pelo hotel. O acervo inclui trabalhos de Pablo Picasso e Jean Cocteau, ao lado de nomes como Antonio Bueno, Bruno Cassinari, Virgilio Guidi, Ennio Morlotti, Ottone Rosai e Mario Sironi. As peças aparecem em quartos, suítes, corredores e áreas sociais, fazendo com que a arte participe dos espaços usados pelos hóspedes.
Essa característica altera a escala da experiência. Em vez de uma única obra instalada no lobby como peça de destaque, há um conjunto amplo o bastante para acompanhar diferentes ambientes do hotel. O Picteau Bistrot & Bar deve parte de sua identidade a essa relação entre interior e coleção, enquanto as janelas devolvem o olhar para o Arno e para uma das paisagens mais reconhecíveis de Florença. O endereço e o conteúdo do edifício trabalham juntos.







Portrait Firenze: 37 suítes de frente para o Arno
A poucos passos do Ponte Vecchio, o Portrait Firenze ocupa outro trecho privilegiado da margem do Arno. A propriedade reúne 37 quartos e suítes, a maioria com vista para o rio, em interiores assinados por Michele Bönan que trabalham referências ao estilo florentino de meados do século XX. O hotel integra a The Leading Hotels of the World.
O formato aproxima a experiência da ideia de uma residência particular. As categorias mais amplas incluem salas de estar e terraços voltados para o Arno, e o serviço se organiza em torno do atendimento personalizado que caracteriza a bandeira Portrait dentro da coleção. A poucos metros dali funciona a Portrait Suite, com vistas que alcançam o Ponte Vecchio.







Gallery Hotel Art: design e arte contemporânea desde 2000
Ainda em Florença, a poucas quadras do Arno, o Gallery Hotel Art segue outra direção. Projetado por Michele Bönan, foi um dos primeiros design hotels da cidade e funciona também como espaço para exposições, instalações e projetos ligados à fotografia e à arte contemporânea. O programa de mostras faz parte de sua identidade desde a abertura, em 2000.
O hotel combina linhas contemporâneas com a proximidade do centro histórico, e suas áreas sociais, como a biblioteca e o Fusion Bar & Restaurant, alternam a função de estar com a de espaço expositivo. A presença da Lungarno em Florença não depende de repetir um mesmo hotel em prédios diferentes: cada propriedade assume características próprias enquanto permanece conectada ao centro histórico. Esse vínculo com o endereço fica ainda mais evidente quando a coleção deixa a Toscana.







Portrait Roma: 14 suítes sobre a Via Condotti
Em Roma, a Lungarno Collection escolheu um dos pontos mais associados à alta moda na capital. O Portrait Roma fica na Via Condotti, a poucos passos da Piazza di Spagna e da escadaria da Praça da Espanha. São apenas 14 suítes, e a localização guarda conexão direta com a história Ferragamo: o hotel ocupa os pavimentos superiores do edifício onde funciona a boutique da marca.
O projeto é de Michele Bönan e utiliza referências ao universo de Salvatore Ferragamo sem transformar o hotel em extensão cenográfica da loja. A escala reduzida produz uma experiência distinta da de um grande hotel urbano: salas de estar, terraços e pequenas cozinhas aparecem em diferentes categorias, aproximando parte das suítes da configuração de uma residência romana. No topo do edifício, o rooftop reúne bar e vistas sobre os telhados do centro histórico.
O endereço tem papel decisivo. A Via Condotti desemboca praticamente na Piazza di Spagna e reúne as principais casas internacionais de moda. Ficar acima de uma boutique Ferragamo cria uma ligação rara entre a história familiar que originou a coleção e o lugar escolhido para sua propriedade romana. Em Milão, a arquitetura assume o papel mais extraordinário dessa história.







Portrait Milano ocupa um seminário cuja história começa em 1565
Quem atravessa o portal monumental do Portrait Milano, no Corso Venezia, entra em um complexo que existia séculos antes da hotelaria moderna. O local foi sede do antigo Seminário Arquiepiscopal de Milão. Sua história naquele endereço começa em 1565, quando o seminário criado pelo então arcebispo Carlo Borromeo foi transferido para o antigo mosteiro dos Humiliati.
O edifício que chegou ao presente não pertence a um único momento histórico. Entre os séculos XVI e XVII, o complexo foi progressivamente transformado. O grande pátio central tomou forma nesse período e o conjunto recebeu o monumental portal barroco associado a Francesco Maria Richini. Ao longo dos séculos seguintes, o local teve diferentes usos, incluindo internato, funções administrativas e hospital militar. Sofreu danos durante a Segunda Guerra Mundial e passou por restauração conduzida por Piero Portaluppi em 1967.
Definir o Portrait Milano apenas como um hotel do século XVI reduziria uma história arquitetônica bem mais complexa. A transformação recente começou em 2018. As obras de restauração e renovação foram conduzidas a partir de 2019 pelo arquiteto Michele De Lucchi e pelo estúdio AMDL CIRCLE, com atenção à preservação do caráter histórico e monumental do conjunto. Os interiores ficaram a cargo de Michele Bönan.
O Portrait Milano abriu em dezembro de 2022. Hoje, o hotel reúne 73 quartos e suítes ao redor do antigo seminário e é membro da The Leading Hotels of the World. No centro está uma praça de aproximadamente 2.800 metros quadrados que conecta o Corso Venezia à Via Sant’Andrea e reúne restaurantes, boutiques, espaços culturais e bem-estar. O que por décadas permaneceu fechado à cidade voltou a funcionar como passagem e espaço urbano. O reconhecimento acompanhou a reabertura: a propriedade figura na seleção do Forbes Travel Guide, recebeu duas Chaves no guia MICHELIN e aparece na lista The World’s 50 Best Hotels, por meio do selo 50 Best Discovery.
Essa é a expressão mais completa da lógica encontrada nos hotéis da família Ferragamo por meio da Lungarno Collection: a história anterior do lugar é preservada e incorporada à própria identidade do hotel, tornando-se parte da razão para estar ali.







Hotéis definidos também pelo que existe ao redor deles
Florença, Roma e Milão poderiam sustentar uma coleção baseada apenas no prestígio de seus nomes. A estratégia da Lungarno Collection vai além disso. Em Florença, um hotel diante do Arno guarda um acervo que ultrapassa 400 obras; um segundo endereço reúne 37 suítes voltadas para o rio; um terceiro mantém, desde 2000, um programa permanente de arte contemporânea. Em Roma, 14 suítes ocupam os andares superiores de um edifício na Via Condotti. Em Milão, um complexo religioso iniciado no século XVI foi restaurado e devolvido à vida urbana quase cinco séculos depois de sua origem.
Arte, arquitetura, design e hospitalidade reaparecem em cada propriedade, mas é a escolha dos endereços que dá coerência à coleção. Para uma família reconhecida internacionalmente por ter construído parte de sua história em torno do design e da moda italiana, a Lungarno Collection revela uma presença menos evidente e particularmente interessante. Existe uma história dos Ferragamo para além das vitrines, e em alguns casos basta atravessar a porta de um hotel para encontrá-la.