Vin Diesel escolheu uma das composições mais conhecidas de Dolly Parton para prestar homenagem à cantora. Em 26 de agosto, o ator publicou em seu perfil no Instagram uma fotografia em preto e branco de Parton acompanhada de uma gravação da própria voz interpretando “I Will Always Love You”.

O tributo teve repercussão imediata e foi noticiado pela imprensa internacional de entretenimento, que descreveu a publicação como uma homenagem sentida, com reações divididas entre fãs surpreendidos pelo registro vocal e pela associação inesperada entre o ator e o repertório country.

A escolha da música, porém, carrega uma história bem anterior à repercussão. Lançada por Dolly Parton em 1974, “I Will Always Love You” nasceu de uma despedida profissional e atravessou mais de cinco décadas em diferentes gravações, filmes e gerações de ouvintes.

A origem de “I Will Always Love You”

Dolly Parton escreveu a canção em 1973, quando se preparava para encerrar a parceria profissional com Porter Wagoner. O registro oficial da cantora indica que a composição foi feita naquele ano justamente para o parceiro musical do início de sua carreira.

A gravação original também é de 1973 e foi feita no RCA Studio B, em Nashville, segundo o Country Music Hall of Fame, estúdio responsável por parte relevante do repertório country daquele período.

Parton integrava o The Porter Wagoner Show desde setembro de 1967, quando foi convidada a se apresentar no programa pouco depois do lançamento de seu álbum de estreia. A participação teve papel importante em sua projeção dentro da música country, mas, depois de anos ao lado de Wagoner, ela decidiu seguir carreira independente. A saída se concretizou em 1974.

A separação entre os dois não foi simples, e a canção surgiu como forma de explicar a decisão. Em vez de transformar o rompimento em confronto, Parton escreveu uma despedida marcada por afeto, gratidão e pela consciência de que seguir caminhos diferentes era necessário.

A música foi lançada comercialmente pela RCA Victor em fevereiro de 1974, no álbum Jolene, e chegou ao primeiro lugar da parada Hot Country Songs da Billboard na semana de 8 de junho daquele ano.

O significado original ajuda a entender por que a composição continua sendo usada em despedidas décadas depois. Frequentemente interpretada como uma grande canção romântica, sua origem está ligada à decisão de partir sem apagar a importância de quem ficou.

Dolly Parton levou a mesma música duas vezes ao topo

A trajetória da composição ganhou novo capítulo em 1982, quando Parton a regravou para o filme The Best Little Whorehouse in Texas, no qual atuou ao lado de Burt Reynolds. A nova versão também alcançou o primeiro lugar da parada country americana.

O feito foi inédito. A Billboard registra que ela se tornou a primeira artista a conquistar duas vezes o número um com a mesma canção, com gravações separadas por oito anos.

A versão original entrou no Grammy Hall of Fame em 2007, conforme o registro da Recording Academy, reconhecimento destinado a gravações consideradas relevantes para a história da música. Ainda assim, o maior fenômeno comercial ligado à canção surgiria quase 20 anos depois do primeiro lançamento.

Whitney Houston transformou a música em fenômeno mundial

Em 1992, Whitney Houston gravou “I Will Always Love You” para a trilha sonora de The Bodyguard, filme em que contracenava com Kevin Costner. A interpretação mudou a dimensão internacional da composição.

A escolha partiu do próprio ator. Documentação da Library of Congress aponta que Costner sugeriu a música para o filme e defendeu a abertura praticamente sem acompanhamento instrumental, colocando a voz de Houston no centro antes da entrada do arranjo produzido por David Foster.

O resultado se tornou um dos maiores sucessos da carreira da cantora. A gravação permaneceu 14 semanas consecutivas no primeiro lugar da Billboard Hot 100, entre o fim de 1992 e o início de 1993.

Os prêmios vieram no 36º Grammy, realizado em 1º de março de 1994. A Recording Academy registra três vitórias ligadas ao projeto: Gravação do Ano e Melhor Performance Vocal Pop Feminina para a canção, além de Álbum do Ano para a trilha sonora de The Bodyguard.

O reconhecimento institucional continuou décadas depois. A gravação de Houston foi incluída na classe de 2019 do National Recording Registry da Library of Congress, anunciada em 25 de março de 2020, programa que preserva registros considerados cultural, histórica ou esteticamente relevantes para os Estados Unidos. A versão dela também integra o Grammy Hall of Fame, com indução em 2018.

Vin Diesel já havia usado a música como forma de homenagem

A interpretação publicada pelo ator pode surpreender pela associação imediata de seu nome ao cinema de ação e à franquia Fast & Furious, mas cantar não é novidade em sua trajetória pública.

Em setembro de 2020, Diesel lançou o single “Feel Like I Do” pela Palm Tree Records, gravadora cofundada pelo produtor norueguês Kygo. A faixa foi escrita e produzida por Petey Martin. Em 30 de outubro do mesmo ano, apresentou uma segunda canção, “Days Are Gone”, pelo mesmo selo.

A discografia teve continuidade anos depois. Em julho de 2024, ele emprestou a voz a “Don’t Stop the Music”, single de dance latino produzido pelo belga Dimitri Vegas, ao lado de Zion, da dupla porto-riquenha Zion y Lennox.

Antes de qualquer lançamento oficial, o ator já havia recorrido à música como linguagem de homenagem. Em 12 de abril de 2015, cantou a cappella um trecho de “See You Again” durante o MTV Movie Awards, em tributo a Paul Walker, seu colega de Fast & Furious, morto em 30 de novembro de 2013.

Desta vez, escolheu justamente uma composição que nasceu de uma despedida.

O catálogo de Dolly Parton disparou após sua morte

A homenagem surgiu em meio a uma retomada expressiva do interesse pela obra da cantora, que morreu em 25 de agosto de 2026, aos 80 anos, em Nashville, no Vanderbilt-Ingram Cancer Center, após um breve período de tratamento contra o câncer.

Os números de audiência reagiram de imediato. Dados da empresa de análise Luminate divulgados pela Associated Press mostram alta de 2.109% nas reproduções de áudio e vídeo do catálogo nos Estados Unidos no dia de sua morte, na comparação com a segunda-feira anterior, saltando de 1,2 milhão para 26,3 milhões. No mundo, o avanço foi de 1.280%, de 2,5 milhões para 35 milhões.

“I Will Always Love You” apareceu em quarto lugar entre as canções com maior crescimento nos Estados Unidos, passando de 64,9 mil para 1,7 milhão de execuções. À frente dela ficaram “Jolene”, que foi de 196,2 mil para 2,7 milhões, “9 to 5”, de 208,6 mil para 2,3 milhões, e “Islands in the Stream”, dueto com Kenny Rogers, de 165,9 mil para 1,8 milhão.

Do Empire State Building ao Palácio de Buckingham

As homenagens ultrapassaram o universo musical. Na noite de 25 de agosto, o Empire State Building, em Nova York, acendeu suas luzes em rosa, às 21h25, horário escolhido como alusão a “9 to 5”.

Na manhã seguinte, em Londres, a Band of the Coldstream Guards executou um arranjo instrumental de “9 to 5” durante a Troca da Guarda, diante do Palácio de Buckingham.

Nesse conjunto de manifestações, a gravação de Vin Diesel chamou atenção por reunir duas referências de universos aparentemente distantes: um dos rostos mais reconhecidos do cinema de ação e uma composição country escrita em Nashville há mais de meio século.

Uma canção que continuou mudando de significado

“I Will Always Love You” começou como uma mensagem de Dolly Parton para Porter Wagoner. Tornou-se sucesso country em 1974, voltou ao topo das paradas em 1982, ganhou alcance mundial com Whitney Houston em 1992 e passou a ocupar lugar próprio na cultura popular.

O Begold Journal reuniu a história de Dolly Parton, da infância no Tennessee à construção de seu legado na música, nos negócios e na filantropia, incluindo a relação com Porter Wagoner, a origem da canção e a decisão da cantora de preservar os direitos sobre a composição.

A interpretação de Vin Diesel acrescenta um novo episódio a essa trajetória. Mais de 50 anos depois do lançamento, a música continua sendo escolhida para expressar exatamente aquilo que estava presente em sua origem: a possibilidade de se despedir sem apagar o afeto e a importância de quem fez parte do caminho.

Foto: reprodução/Instagram @vindiesel