Durante muito tempo, o mercado internacional de relógios de colecionador esteve dividido de maneira bastante rígida entre dois grandes territórios conceituais: de um lado, o universo vintage tradicional, dominado por peças produzidas em meados do século vinte; de outro, a relojoaria contemporânea, focada nos lançamentos mais recentes das grandes casas suiças. Entre essas duas fronteiras, contudo, existe uma faixa temporal intermediária que ganhou nome próprio e passou a atrair atenção crescente de analistas, especialistas e colecionadores em todo o mundo: a categoria neo-vintage.

A prestigiada casa de leilões Phillips utiliza formalmente o termo neo-vintage para enquadrar modelos fabricados entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 2000. Na edição The Hong Kong Sessions, Fall 2026, realizada em associação com a Bacs & Russo, a instituição reuniu um catálogo com mais de 150 relógios selecionados. A venda reúne peças de Audemars Piguet, Patek Philippe e Vacheron Constantin e apresenta exemplos da produção neo-vintage selecionada para o leilão.

O contexto histórico e a singularidade da era neo-vintage

A década de 1990 começou após a crise do quartzo, período em que a indústria tradicional reorganizou a produção de relógios mecânicos e retomou complicações tradicionais. Naquele momento histórico, diversas linhas de produtos das mais respeitadas marcas ainda não haviam se consolidado na forma padronizada que o público conhece hoje. As grandes manufactures desfrutavam de uma liberdade criativa incomum, promovendo experimentações audaciosas em termos de complicações horológicas, geometria de caixas, acabamento de mostradores e aplicação de técnicas artesanais decorativas.

Dessa maneira, as referências representativas do período neo-vintage costumam combinar proporções físicas mais contidas e elegantes com volumes de produção relativamente reduzidos. Além disso, apresentam soluções mecânicas e estéticas raras que acabaram desaparecendo das coleções subsequentes. Para a comunidade global de colecionadores, essa combinação precisa cria uma oportunidade valiosa: peças com confiabilidade mecânica e robustez suficientes para o uso diário, mas dotadas de peculiaridades visuais e históricas de uma era produtiva inteiramente encerrada.

Audemars Piguet e a homenagem à Ferrari 315 S

Entre os lotes de maior destaque apresentados pela Phillips está o Audemars Piguet Ref. 14677BA de 1992, executado em caixa de ouro amarelo. O grande elemento diferencial desta referência é a presença de uma escultura minuciosa do modelo automobilístico Ferrari 315 S gravada diretamente sobre um mostrador parcialmente esqueletizado.

O exemplar integra uma seleta família de relógios com temática automotiva desenvolvidos pela manufatura. A peça exemplifica perfeitamente como a Audemars Piguet explorava narrativas estilísticas e colaborações conceituais bastante diversas das diretrizes de design que hoje caracterizam suas linhas mais famosas, revelando a audácia criativa que predominava no catálogo da empresa nos anos 1990.

Vacheron Constantin e o domínio das complicações retrógradas

A seleção da casa de leilões traz também uma das criações mais célebres da Vacheron Constantin: o modelo Vacheron Constantin Mercator Ref. 43050, produzido em 1997. Afastando-se da disposição tradicional de ponteiros centrais giratórios, o relógio emprega um engenhoso sistema de indicações retrógradas duplas para indicar horas e minutos. A peça foi concebida para homenagear o lendário cartógrafo do século dezesseis Gérard Mercator, exibindo mostradores em esmalte magnificamente pintados com mapas históricos.

Junto ao Mercator, a exibição inclui um tourbillon esqueletizado da Vacheron Constantin fabricado na virada do milênio, entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000. O modelo evidencia o fascínio desse período pela arte do openworking extremo e pelo acabamento manual de alta complexidade, revelando a engenharia dos componentes através de pontes finamente gravadas.

Patek Philippe Ref. 5040 e a complicação clássica em caixa tonneau

A contribuição da Patek Philippe para o catálogo é exemplificada pelo calendário perpétuo Ref. 5040, lançado originalmente em 1992. Trata-se de uma peça altamente significativa para a história da maison, uma vez que acomodou uma das complicações nobres mais tradicionais da alta relojoaria dentro de uma caixa com formato tonneau.

A escolha dessa geometria curva para a caixa representou uma decisão estilística singular e atípica para a Patek Philippe naquela época. Durante os anos 1990, a grande maioria dos calendários perpétuos mais célebres fabricados pela marca apresentava caixas estritamente redondas. Essa variação formal demonstra como o período neo-vintage oferecia margem para interpretações audaciosas de complicações clássicas.

As razões do interesse renovado pela produção dos anos 1990

A redescoberta e a valorização acelerada do período compreendido entre os anos 1980 e os anos 2000 ultrapassam o mero sentimento de nostalgia. O fenômeno reflete a maturação de um mercado internacional de colecionadores cada vez mais criterioso, focado na busca de referências menos óbvias, na pesquisa profunda sobre a evolução do design das grandes manufactures e no interesse por relógios raros que não dependem da disputa acirrada pelos modelos comerciais hiperpopularizados.

À medida que historiadores e casas de leilão documentam esse intervalo produtivo com maior rigor analítico, referências que anteriormente eram vistas como variações secundárias passam a receber uma nova interpretação histórica e financeira. No universo neo-vintage, o patrimônio preservado nos arquivos das marcas ainda guarda um vasto campo de descobertas para o colecionismo contemporâneo.

Serviço

O evento The Hong Kong Sessions, Fall 2026, organizado pela Phillips in Association with Bacs & Russo, ocorre no formato de leilão online programado entre os dias 17 e 24 de setembro de 2026. A venda reúne um catálogo diversificado com mais de 150 relógios raros produzidos por diferentes manufactures de alta relojoaria.