Durante muito tempo, o mercado de relógios parecia dividido em dois territórios fáceis de entender: vintage e contemporâneo. Entre eles, porém, existe uma faixa que ganhou nome próprio e passou a atrair cada vez mais atenção: o neo-vintage.
A Phillips usa o termo para se referir, de forma geral, a relógios produzidos entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 2000. Na Hong Kong Sessions, Fall 2026, a casa reúne mais de 150 relógios e destaca uma seleção de Audemars Piguet, Patek Philippe e Vacheron Constantin que ajuda a explicar por que esse período voltou ao radar.
O que torna o neo-vintage diferente
Os anos 1990 chegaram logo depois da crise do quartzo, quando a relojoaria mecânica voltava a ocupar um espaço de desejo e de inovação. Muitas coleções ainda não tinham assumido a forma que conhecemos hoje. As manufactures experimentavam complicações, caixas, mostradores e técnicas decorativas com liberdade incomum.
Isso significa que algumas referências neo-vintage combinam proporções mais contidas, produção relativamente pequena e soluções que desapareceram dos catálogos posteriores. Para colecionadores, essa mistura pode criar um terreno fértil: peças suficientemente modernas para uso frequente, mas com características que já pertencem a uma época encerrada.
Um Audemars Piguet com Ferrari gravada no mostrador
Entre os exemplos selecionados pela Phillips está um Audemars Piguet Ref. 14677BA de 1992, em ouro amarelo, com uma Ferrari 315 S gravada sobre um mostrador parcialmente esqueletizado. A peça faz parte de uma pequena família de relógios com motivos automotivos e mostra como a marca experimentava narrativas bastante diferentes das coleções pelas quais é mais conhecida hoje.
Vacheron Constantin e a liberdade das complicações
A seleção inclui também um Vacheron Constantin Mercator Ref. 43050 de 1997. Em vez de ponteiros tradicionais, o modelo usa indicações retrógradas de horas e minutos e homenageia o cartógrafo Gérard Mercator. Outro Vacheron, um tourbillon esqueletizado da virada do milênio, evidencia o interesse do período por openworking e acabamento manual.
Patek Philippe fora do formato esperado
A Patek Philippe aparece com o calendário perpétuo Ref. 5040, lançado em 1992. A complicação clássica foi colocada em uma caixa tonneau, uma escolha incomum para uma maison cujos calendários perpétuos mais conhecidos daquele período eram majoritariamente redondos.
É justamente esse tipo de desvio que torna o neo-vintage interessante. O colecionador encontra grandes nomes em momentos de transição, antes que certas linhas de produto se tornassem definitivamente associadas à imagem atual das marcas.
O que o interesse pelo período revela
A volta aos anos 1990 não significa apenas nostalgia. Ela mostra um mercado mais atento a referências menos óbvias, à história de design das manufactures e a relógios que não dependem exclusivamente dos ícones mais disputados.
Quando um período começa a ser estudado com mais precisão, referências antes vistas como secundárias podem ganhar nova leitura. E, no caso do neo-vintage, o arquivo ainda parece ter muito a revelar.
Serviço
The Hong Kong Sessions, Fall 2026, Phillips in Association with Bacs & Russo. Leilão online de 17 a 24 de setembro de 2026, com mais de 150 relógios de diferentes manufactures.