Poucas peças do guarda-roupa ocidental percorreram uma trajetória de transformações funcionais e simbólicas tão expressiva quanto o trench coat. Projetado originalmente no século XIX para solucionar demandas práticas de proteção contra as intempéries climáticas e adaptado posteriormente para o uso militar nas trincheiras, o casaco ultrapassou suas funções utilitárias iniciais, ingressou na figurinação do cinema internacional, integrou a indumentária civil urbana e se consolidou como uma das marcas visuais mais reconhecidas da Burberry.

A partir de 21 de setembro de 2026, o Victoria and Albert Museum, em Londres, dedica a esse processo de evolução uma exposição gratuita intitulada The Burberry Trench: Crafting an Icon. A inauguração da mostra coincide com o marco temporal em que a casa de moda britânica celebra 170 anos de fundação, articulando a preservação histórica de seu acervo institucional com a difusão cultural de seus códigos fabris junto ao público visitante.

Origens funcionais e o desenvolvimento da gabardine em Basingstoke

O empresário Thomas Burberry estabeleceu a sua primeira oficina de confecção na cidade de Basingstoke, na Inglaterra, no ano de 1856, quando tinha 21 anos de idade. A premissa central que orientou o surgimento do empreendimento possuía caráter estritamente pragmático: desenvolver vestuários masculinos e femininos capazes de proteger os usuários contra as rigorosas e instáveis condições meteorológicas da ilha britânica.

A grande inovação técnica da empresa ocorreu em 1879, data em que Thomas Burberry desenvolveu a gabardine. O tecido revolucionário apresentava propriedades de leveza, respirabilidade e alta resistência à água e ao desgaste mecânico. A invenção alterou substancialmente a produção de roupas voltadas para ambientes externos e estabeleceu a base tecnológica sobre a qual a reputação da casa britânica seria construída e mantida nas décadas seguintes.

Do modelo Tielocken à adaptação militar do trench coat

No ano de 1912, Thomas Burberry registrou a patente do Tielocken, modelo considerado o predecessor direto do trench coat moderno. Durante a Primeira Guerra Mundial, o desenho do casaco foi ajustado para atender às exigências logísticas e táticas dos oficiais nas frentes de combate. Diversos detalhes construtivos que posteriormente passaram a ser interpretados sob uma perspectiva estética desempenhavam funções utilitárias precisas no ambiente das trincheiras.

Entre esses elementos técnicos, as dragonas fixadas nos ombros serviam para indicar a patente militar e fixar alças de equipamentos, as argolas metálicas em formato de D fixadas no cinto permitiam prender acessórios de campo, e as abas sobrepostas no peito e nas costas garantiam proteção reforçada contra a infiltração de água da chuva. Encerrado o conflito armado, a peça transitou gradualmente para o guarda-roupa civil. Registros mantidos pela própria Burberry indicam que, a partir da década de 1960, a origem militar do casaco passou a ser incorporada à moda e à cultura britânica.

O recorte curatorial selecionado para a exposição no V&A

A mostra organizada pelo Victoria and Albert Museum examina essa evolução histórica por meio da exibição de exemplares produzidos em diferentes décadas do século XX e XXI. Entre os itens selecionados para a exposição, destaca-se um catálogo comercial voltado ao público feminino contendo modelos de trench coats produzidos no período comercial indicado como 1937 a 44. A seleção inclui também uma versão masculina bordada com espelhos pertencente à coleção Outono/Inverno 2015, uma peça confeccionada em seda metálica na cor rosa apresentada na temporada Primavera/Verão 2013 e um modelo feminino com estampa barroca e acabamento em franjas integrante da coleção Inverno 2025.

A diversidade das peças reunidas nas galerias do museu evidencia que a permanência do casaco na história da indumentária ocidental não decorreu da manutenção imutável de suas formas originais. Ao contrário, a peça manteve sua relevância graças à contínua reinterpretação de suas proporções, matérias-primas, paletas de cores e acabamentos superficiais, sem que ocorresse o apagamento dos elementos estruturais que tornam o modelo imediatamente identificável em qualquer contexto.

Comemoração dos 170 anos e a estratégia de valorização do patrimônio

No transcorrer do ano de 2026, a Burberry estruturou a comunicação de seu aniversário de 170 anos a partir da centralidade de seu acervo histórico. A marca promoveu uma série de campanhas publicitárias e ativações globais vinculadas à data, entre as quais se destaca a iniciativa Portraits of an Icon, focada na trajetória do trench coat, reforçando o posicionamento conceitual definido pela empresa sob a diretriz corporativa de Timeless British Luxury.

A realização da exposição nas galerias do V&A alinha-se com esse esforço corporativo de resgate patrimonial, e oferece aos visitantes uma análise sociológica da cultura material. O percurso expositivo demonstra como uma peça concebida no século XIX para atender a uma necessidade prática de proteção do corpo pôde atravessar transformações sociais, adaptar-se a novas demandas operacionais do mercado e se estabelecer como uma linguagem de moda reconhecida internacionalmente.

Serviço

Exposição The Burberry Trench: Crafting an Icon. Localização: V&A South Kensington, Prince Consort Gallery, Londres, Reino Unido. Abertura ao público em 21 de setembro de 2026. A entrada é gratuita, sujeita à programação oficial e às orientações de visitação divulgadas pelas autoridades do museu.